17 Novembro, 2019

45 anos Depois do Adeus à ditadura

Cravos e canções. Estes são os símbolos da Revolução que transformou o país e que está fortemente marcada na literatura contemporânea. Conheça estes espaços históricos de Lisboa através de obras portuguesas.

Percorrer Lisboa através de excertos literários é uma forma diferente de descobrir a cidade de 1974. Na escrita de autores portugueses “a Revolução dos Cravos tornou-se um tema literário na ficção contemporânea”, lê-se no artigo (2015) escrito a quatro mãos por Ana Isabel Queiroz, enquanto investigadora no Instituto de Estudos de Literatura e Tradição (IELT), e Daniel Alves (IHC), investigador no Instituto de História Contemporânea (IHC), da NOVA FCSH.

Estas descrições dizem respeito aos eventos que aconteceram entre 24 de abril e 1 de maio de 1974, a “semana dos prodígios”, como Lídia Jorge e Filomena Marona Beja a denominaram nos seus livros. Os investigadores analisaram 23 obras publicadas até 2013 e dividiram-nas em sete categorias (ocorrências, instituições, mensagens, figuras públicas, media, ícones, emotividade) onde se inserem as passagens literárias de cada escritor.

Os locais mais célebres na literatura analisada são o Largo e o Quartel do Carmo que, juntos, representam mais de metade dos excertos das obras.  Por esta razão, os investigadores apontam que as “representações literárias associam fortemente a Revolução dos Cravos ao centro de Lisboa”, apesar de ter tido palco noutras áreas da cidade como, por exemplo, o Terreiro do Paço, a Rua Antónia Maria Cardoso ou a Rádio Clube Português.

São ainda destacados nesta análise os autores que incorporam nas suas personagens a desconfiança e a visão política resistente à revolução. São exemplos as obras de Almeida Faria (Lusitânia), António Lobo Antunes (Fado Alexandrino), José Saramago (A Noite), Mário de Carvalho (Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto) e Rui Zink (Hotel Lusitânio). Na literatura analisada, porém, os sítios referidos nem sempre correspondem à localização real dos acontecimentos.

A semana dos prodígios, livro a livro

“Canções e cravos são os símbolos da «semana dos prodígios»”, apontam Ana Isabel Queiroz e Daniel Alves, porque são as palavras que descrevem a intemporal fotografia dos cravos a serem colocados nos canos das armas dos militares.

Livro a livro, esta semana ficou gravada na memória coletiva. Tudo começou na rádio, na noite de 24 de abril. As senhas para as operações militares foram transmitidas com as músicas E Depois do Adeus, de Paulo de Carvalho, e Grândola Vila Morena, de José Afonso. Estes acontecimentos podem ser lidos, entre outras, nas obras de José Saramago, A Noite (2006), e de Urbano Tavares Rodrigues, O Último dia e o primeiro (1999).

O apelo do Movimento das Forças Armadas (MFA) para a população não sair de casa, transmitido via rádio na noite do dia 24 de abril, é mencionado 14 vezes nas 21 obras que retratam este momento. Mas a população ignorou e saiu à rua para assistir e participar na revolução.

O dia 25 de abril, o marco da queda do regime de Oliveira Salazar, teve lugar em vários locais da cidade. Os diferentes acontecimentos daquele dia, como o movimento de veículos militares que entraram na capital, ficaram assinalados na obra de Mário de Carvalho, Apuros de um pessimista em fuga (1999). A ocupação da sede da RTP1 pelo MFA pode ser lida nas obras de Alexandre Pinheiro Torres, Amor, só amor, tudo amor (1999) e na obra de Filomena Marona Beja, Bute daí, Zé (2010).

A ocupação do Terreiro do Paço, do Largo do Carmo, da Rua António Maria Cardoso (onde estava sediada a PIDE/DGS) e outros locais, está presente em obras como a de António Lobo Antunes, A morte de Carlos Gardel (1994) e Carlos Brito, Vale a pena ter esperança (1999). A população que saiu à rua para ajudar os militares está refletida na obra de Germano Almeida, Dona Pura e os Camaradas de Abril (1999).

Os dias que se seguiram à queda da ditadura são mencionadas noutras obras, incluindo o dia do trabalhador. O ano de 1974 marcou a celebração sem censura deste dia e está presente nas obras de Almeida Faria, Lusitânia (1ª ed. 1985) e nas de José Cardoso Pires, Alexandra Alpha (1ª ed. 1987).

Os investigadores referem que é esta sinergia entre a literatura e a cidade conecta os leitores aos espaços físicos históricos. Por isso, Ana Isabel Queiroz e Daniel Alves sugerem nove locais a percorrer através das obras literárias contemporâneas. O objetivo é “apresentar o roteiro como um recurso educativo”, afirma Daniel Alves.

A georreferenciação pode ser consultada no website de Lisboa em (R)evolução e os excertos podem ser lidos no website  Atlas das Paisagens Literárias de Portugal.

Fotografia:  25 de abril de 1974 (Alfredo Cunha, Arquivo Fotográfico de Lisboa)

Escrito por
Ana Sofia Paiva
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Uma nova forma de conhecer Lisboa
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a partir do que se investiga na NOVA FCSH. [Saiba +]

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Tempos e cidades (1.º semestre)
Unidade curricular do mestrado em Estudos Urbanos, aberta a alunos externos. [Saiba +]

História de Lisboa Medieval (1.º semestre)
Unidade curricular do mestrado em História, aberta a alunos externos. [Saiba +]

A cidade na cultura oitocentista (2.º semestre)
Unidade curricular do mestrado em História da Arte, aberta a alunos externos. [Saiba +]

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