A afirmação da classe médica no século XIX

As duas epidemias de cólera que atingiram Lisboa, em 1833 e 1855/56, mostram como os médicos passaram de uma classe submissa face ao poder político, para uma classe independente e de destaque na sociedade.

Há uma clara diferença na atuação do corpo médico nas duas epidemias de cólera que atingiram Lisboa em oitocentos, mostra André Pita na sua tese de mestrado (2017) em História Contemporânea da NOVA FCSH. O autor analisou a atuação dos médicos no Hospital de S. José, então a principal instituição médica da capital, para procurar perceber o que mudou da primeira vaga epidémica para a segunda.

A epidemia de cólera de 1833 ocorreu em plena guerra civil entre absolutistas e liberais. A ação médica estava limitada por ordem do governo miguelista e pelo receio das possíveis represálias de quem pusesse em causa essa orientação. “O poder médico ainda estava controlado pelo poder político através da pressão para não executar tratamentos específicos para a cólera e da incapacidade dos médicos em recusar estas ordens”, escreve André Pita. “Os médicos ainda estavam reféns de uma submissão ao poder político, sendo incapazes de o enfrentar.”

Também os conhecimentos disponíveis na época contribuíram para a elevada taxa de mortalidade daquela epidemia, uma vez que a medicina ainda não dispunha dos instrumentos necessários para conseguir enfrentar o flagelo.

Na vaga de cólera que ocorreu em 1855 e 1856, há um cenário político e social bem distinto, no qual se reconhece mais autonomia e poder de decisão aos médicos. Não só há a destacar “um clima político mais permissivo e colaborativo”, como os próprios médicos já não eram tão subservientes ao poder político. Pelo contrário, utilizam a esfera política “para elevar os seus interesses” e “afirmar a sua importância na sociedade”.

Esta mudança reflete-se, segundo André Pita, na mortalidade, que é comparativamente mais baixa do que a provocada pela epidemia de cólera de 1833. Há mais liberdade para tomar decisões no espaço hospitalar, permitindo encontrar formas mais eficazes de combater a epidemia.

Mas não é só esta mudança que ocorre. A esfera de atuação dos médicos vai-se alargando e consolidando: “Em Lisboa a comunidade médica age de forma a cobrir as carências deixadas pelo governo, nomeadamente através do trabalho individual do pessoal hospitalar e da sua participação na mobilização e gerências de movimentos filantrópicos que emergiram em resposta à epidemia”, reforça o investigador.

No final do século XIX, o poder médico não só existe, como já se encontra consolidado e molda a sociedade, tendo sido construído de forma gradual, conclui André Pita. “O panorama epidémico é um fator essencial na promoção deste tipo de desenvolvimentos, visto que leva à criação de novos meios de organização, políticos e sociais, para a saúde e dá oportunidades para as elites médicas se integrarem nas já referidas esferas de poder.”

Imagem: Le Choléra à Paris, Jeanron del. Frilley. US National Library of Medicine.

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