Angelina Vidal: uma desfavorecida que defendeu os desfavorecidos

Escritora, professora e olisipógrafa, Angelina Vidal usou as palavras para promover os direitos das mulheres operárias, que viviam com grandes dificuldades financeiras. Esta foi uma realidade que também conheceu de perto na maior parte da sua vida.

Na Rua de São Gens, n.º 41, no Bairro da Graça, há uma pequena vivenda térrea protegida por um portão verde. Entre duas janelas, uma placa homenageia a “poetisa, jornalista e professora”, que ali viveu e morreu, pela participação ativa na defesa de ideais humanistas e da vida associativa.

Angelina Vidal (1853-1917) foi “uma das vozes mais fortes da corrente progressista, próxima da questão social, do operariado e dos seus problemas”, defende Maria Alice Samara, investigadora da NOVA FCSH, no seu livro Operárias e Burguesas – As Mulheres no Tempo da República (Esfera dos Livros, 2007). As difíceis condições de vida das famílias operárias foram também as suas: órfã aos nove anos, casou aos 19, mas separou-se 12 anos depois, perdendo a tutela dos filhos. Numa sociedade em que a Lei do Divórcio seria promulgada apenas a Novembro de 1910, a republicana teve de enfrentar o estigma e trabalhar para sobreviver.

Foi conferencista e jornalista, em particular na imprensa operária e muitas vezes sem remuneração. Iniciou nos anos de 1880 a colaboração com A Voz do Operário, do qual viria a ser editora entre 1897 e 1901. Escreveu teatro, prosa e poesia, arrecadando dois prémios internacionais de poesia: um em 1885, com A Morte do Espírito; outro em 1902, com Ícaro. Fez uma breve incursão na olisipografia, publicando em 1900 o livro Lisboa Antiga e Lisboa Moderna.

Preocupou-se, sobretudo, com as condições das mulheres operárias, que tinham de garantir o sustento da família, conciliando esse papel com o de mãe. No seu texto Às operárias portuguesas (1886), incentivou-as a lutar pelas 12 horas de trabalho, à semelhança das operárias austríacas. O dia de trabalho tinha 15.

Os desfavorecidos que defendia foram os seus principais aliados. No mesmo ano em que o ex-marido faleceu, em 1894, Angelina terá tentado o suicídio, devido às difíceis condições de vida. A pensão de viuvez fora-lhe negada dadas as suas atividades políticas. As operárias das fábricas do tabaco abriram uma subscrição para ajudá-la financeiramente. Também A Voz do Operário conseguiu uma proposta de cotização que lhe assegurava um vencimento mensal pelo seu trabalho como professora de francês. Dois anos depois, já sem esse vencimento, foi novamente auxiliada pelas operárias.

Angelina Vidal só conseguiria a pensão por viuvez a que tinha direito no final de julho de 1917, mas acabou por falecer uns dias depois, a 1 de agosto, na sua casa da Graça. O seu nome foi perpetuado em 1924 numa artéria que culmina na Rua dos Sapadores.

Casa onde viveu Angelina Vidal, na Rua de São Gens, 41.

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