13 Dezembro, 2018

Projetos de investigação à lupa #7: artefactos conventuais contam história de luxo e devoção

Sabia que freiras que habitavam no Convento de Santana viviam uma vida requintada e escondiam, inclusive, objetos com motivos eróticos? Conheça a história que estava por desenterrar de um dos maiores conventos femininos do país no século XVIII.

Notícias e relatos deixados por padres, monges e moralistas denunciavam na altura o quotidiano luxuoso de algumas casas religiosas entre os séculos XVI e XIX. Esta foi a realidade do Convento de Santana, construído em 1562 e extinto em 1884, uma casa religiosa em que a ostentação, a devoção e até o erotismo conviviam diariamente. E é a história que o projeto “Intervenção arqueológica no Convento de Santana, de Lisboa” do Instituto de Arqueologia e Paleociências (IAP) da NOVA FCSH se propõe contar através dos artefactos encontrados.

Mário Varela Gomes e Rosa Varela Gomes, arqueólogos e coordenadores do projeto, não queriam acreditar quando se depararam com uma vala repleta de detritos do antigo Convento de Santana, um dos maiores de Lisboa e até do país na época, localizado onde atualmente se erguem as instalações da Faculdade de Ciências Médicas, da Universidade Nova de Lisboa.

Nas escavações realizadas entre 2002-2003 e 2009-2010 não só foram encontrados típicos objetos do quotidiano (como panelas, escovas e botões) e objetos de devoção (nomeadamente terços e contas), como também outro tipo de vestígios que revelam o ambiente económico e social daquele convento. Ali como noutros, e contrariamente ao que se julgaria, os dogmas religiosos eram frequentemente transgredidos. “Havia alguma devoção, mas sabemos que os conventos no século XVII não correspondiam exatamente só a questões de fé. Era um estatuto social ser-se freira”, afirma Mário Varela Gomes.

Porcelanas chinesas, faianças portuguesas, cerâmicas de origem vietnamita, um anel de rubi de fabrico indiano, azulejos e até uma taça chinesa com motivos eróticos constam entre os artefactos descobertos. “Eram peças caras que vieram corroborar algumas notícias de caráter literário e relatos de alguns oradores e padres que falavam contra o luxo nos conventos femininos”, revela o investigador.

Segundo o arqueólogo, estes testemunhos denunciam a existência de “uma ordem religiosa abastada e de freiras com poder económico, habituadas uma vida requintada” e de luxo, da qual até o erotismo, supostamente abolido pela religião, fazia parte. “Algumas delas tinham criadagem e até amantes. Faziam a sua vida como se estivessem no seu próprio palácio”, acrescenta o investigador.

Varela Gomes considera que esta é uma “realidade mal conhecida”. “Esta investigação procura levantar um pouco o véu dessa história que estava por escrever. E para fazer a história verdadeira temos de ir a este tipo de testemunhos. Estes objetos são reais. Estão lá, estão no contexto”, conclui.

Nos próximos anos, o projeto propõe-se a continuar a estudar o imenso espólio recolhido e guardado numas centenas de caixas, a fim de cumprir o seu objetivo: salvaguardar o testemunho do Convento de Santana e o valor documental, histórico e arqueológico das suas estruturas e materiais.

Imagem: taça chinesa com motivos eróticos (século XVII) encontrada nas escavações realizadas no Convento de Santana.

 

Escrito por
Edna Baptista
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Escrito por Edna Baptista

O PROJETO

Uma nova forma de conhecer Lisboa
+ inovadora + visual e + interativa
a partir do que se investiga na NOVA FCSH. [Saiba +]

APRENDER SOBRE LISBOA NA NOVA FCSH 2017/2018

Tempos e cidades (1.º semestre)
Unidade curricular do mestrado em Estudos Urbanos, aberta a alunos externos. [Saiba +]

História de Lisboa Medieval (1.º semestre)
Unidade curricular do mestrado em História, aberta a alunos externos. [Saiba +]

A cidade na cultura oitocentista (2.º semestre)
Unidade curricular do mestrado em História da Arte, aberta a alunos externos. [Saiba +]

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