25 Maio, 2019

Assistência aos indigentes no primeiro terço do século XX

Nas primeiras três décadas do século XX são férteis os relatos de escritores e da imprensa dos indigentes de Lisboa. É também nesta altura que se multiplicam as iniciativas assistenciais públicas e privadas a este grupo carenciado.

Mulheres de xailes escuros, sujas e pálidas, crianças maltrapilhas e ranhosas, homens de grandes barbas, prostitutas e outros desfavorecidos que viviam nas ruas, em bairros pobres ou em asilos, albergues, prisões  – assim era descritos na imprensa e em relatos de escritores – compunham a classe de indigentes de Lisboa, à margem da sociedade.

Nas primeiras décadas do século XX, assiste-se a uma evolução da caridade particular e da assistência pública, afirmando-se o Estado no seu papel de provedor. Durante a Primeira República, entre 1910 e 1926, há um investimento na legislação da assistência, em particular aos menores, refletindo o empenho na assistência aos mais carenciados.

Os asilos e os albergues de Lisboa acolhiam nestas décadas idosos sem família e meios de subsistência, homens de meia idade, sem família, impossibilitados de trabalhar por motivos de saúde, e mulheres viúvas com filhos e menores órfãos ou abandonados. A população adulta dos asilos era constituída por indivíduos solteiros, nascidos fora de Lisboa, o que pressupõe uma corrente migratória da província para a cidade, na procura de uma vida melhor. A faixa etária proeminente situava-se entre os 60 e os 80 anos.

Os menores entravam nos estabelecimentos de beneficiência entre os 6 e os 11 anos de idade, concluíam pelo menos o segundo ano de escolaridade e aprendiam regras de comportamento consideradas fundamentais. As “sopas” dos pobres, as esmolas e os banhos facultados pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e outras entidades oficiais e particulares são outros exemplos de assistência aos indigentes.

Também os meios de comunicação social aderiram à ação beneficiente. O Século promoveu a criação da “Sopa para os Pobres”, com o apoio do governo de Sidónio Pais, e os banhos de mar às crianças pobres, além de divulgar as iniciativas promovidas oficialmente ou por particulares.

Estes são alguns dos dados recolhidos e analisados por Maria de Fátima Pinto, no livro “Os indigentes entre a assistência e a repressão – A outra Lisboa no 1.º terço do século” (Livros Horizonte, 1999), que resultou da sua tese de mestrado em História Moderna na FCSH.

Legenda da imagem: Albergue das Crianças Abandonadas, na Rua de Santo Amaro, 36. Fotografia de Joshua Benoliel (Arquivo Fotográfico de Lisboa).

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2 comentários
  • Eu vivi toda a minha infância nesse colégio, desde 1952 a 1966 tendo dado entrada com os meus 4 anos de idade e saído com 14 anos guardo boas muito boas lembranças e recordo até divertidas situações desse tempo. Recordo-me muito das minhas mães de coração que sem terem dever algum me criaram e educaram… hoje infelizmente já cá não estão! mas acredito que onde quer que estejam estarão bem. Pois viveram uma vida inteira a cuidar do próximo e, mediante o que conheciam e receberam da vida deram sempre o seu melhor, também elas cresceram e se educaram nesse mesmo sítio não conhecendo nenhum seu familiar nem o mundo exterior, a não ser através de cada criança que lá dava entrada carregando sua história. Tenho tentado pesquisar toda a história da minha “CASA MÃE” mas não encontro nada. Sei que o seu começo foi o amor de um polícia que levava para sua casa crianças que encontrava pelas ruas,lembro-me da termos a sua imagem de homenagem na nossa parede… mas gostava tanto de saber todo o seu começo, toda a sua história! pois afinal é a minha história! um pedaço da minha vida que está em branco, vivendo apenas em minhas memórias. Aprendemos de tudo, Educação, trabalhos de casa, cuidar de nossas roupas, nossos espaços, cuidar das crianças mais pequenas que nós, de nossa higiene, trabalhos lindos de rendas e bordados tinha-mos uma forte disciplina certo, mas a disciplina nunca matou ninguém, e analizando bem talvez faça falta em nossos dias… tínhamos tempo para tudo até para as nossas brincadeiras e acima de tudo humildade para com o próximo. Estou muito grata a tudo o que me ensinaram, e a essas mães de coração lhes devo o que sou hoje, se me perguntarem se tudo foi bom? claro que não! mas onde é que tudo é bom??? ❤

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