Assistência aos indigentes no primeiro terço do século XX

Nas primeiras três décadas do século XX são férteis os relatos de escritores e da imprensa dos indigentes de Lisboa. É também nesta altura que se multiplicam as iniciativas assistenciais públicas e privadas a este grupo carenciado.

Mulheres de xailes escuros, sujas e pálidas, crianças maltrapilhas e ranhosas, homens de grandes barbas, prostitutas e outros desfavorecidos que viviam nas ruas, em bairros pobres ou em asilos, albergues, prisões  – assim era descritos na imprensa e em relatos de escritores – compunham a classe de indigentes de Lisboa, à margem da sociedade.

Nas primeiras décadas do século XX, assiste-se a uma evolução da caridade particular e da assistência pública, afirmando-se o Estado no seu papel de provedor. Durante a Primeira República, entre 1910 e 1926, há um investimento na legislação da assistência, em particular aos menores, refletindo o empenho na assistência aos mais carenciados.

Os asilos e os albergues de Lisboa acolhiam nestas décadas idosos sem família e meios de subsistência, homens de meia idade, sem família, impossibilitados de trabalhar por motivos de saúde, e mulheres viúvas com filhos e menores órfãos ou abandonados. A população adulta dos asilos era constituída por indivíduos solteiros, nascidos fora de Lisboa, o que pressupõe uma corrente migratória da província para a cidade, na procura de uma vida melhor. A faixa etária proeminente situava-se entre os 60 e os 80 anos.

Os menores entravam nos estabelecimentos de beneficiência entre os 6 e os 11 anos de idade, concluíam pelo menos o segundo ano de escolaridade e aprendiam regras de comportamento consideradas fundamentais. As “sopas” dos pobres, as esmolas e os banhos facultados pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e outras entidades oficiais e particulares são outros exemplos de assistência aos indigentes.

Também os meios de comunicação social aderiram à ação beneficiente. O Século promoveu a criação da “Sopa para os Pobres”, com o apoio do governo de Sidónio Pais, e os banhos de mar às crianças pobres, além de divulgar as iniciativas promovidas oficialmente ou por particulares.

Estes são alguns dos dados recolhidos e analisados por Maria de Fátima Pinto, no livro “Os indigentes entre a assistência e a repressão – A outra Lisboa no 1.º terço do século” (Livros Horizonte, 1999), que resultou da sua tese de mestrado em História Moderna na FCSH.

Legenda da imagem: Albergue das Crianças Abandonadas, na Rua de Santo Amaro, 36. Fotografia de Joshua Benoliel (Arquivo Fotográfico de Lisboa).

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