16 Setembro, 2019

Também da água, da carne e do pão se fez Lisboa

É uma exposição que faz dos lisboetas os protagonistas da Idade Média. “Pão, Carne e Água: Memórias de Lisboa Medieval”, patente no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, mostra uma faceta diferente da cidade e expõe documentos inéditos da época.

Para conhecer a capital de hoje é necessário compreender a cidade que existiu no passado. A exposição “Pão, Carne e Água: Memórias de Lisboa” resgata memórias da Idade Média. Amélia Aguiar Andrade, coordenadora científica da exposição em conjunto com Mário Farelo, ambos professores no departamento de História e investigadores do Instituto de Estudos Medievais (IEM) da NOVA FCSH, considera importante a abordagem a esta fase porque é “a idade média que constrói a capitalidade de Lisboa e é isso que tem de ser trazido ao de cima”, aponta.

A produção académica sobre Lisboa Medieval tem sido escassa nas últimas décadas, realça Amélia Aguiar Andrade, o que faz com que esta exposição seja uma das poucas sobre esta temática. Assim, o objetivo dos coordenadores científicos passou, também, por tornar a população lisboeta na principal protagonista desta exposição. Há rostos e nomes e não são apenas os de reis.

Conhecer a época medieval é também conhecer a história das suas gentes: “Temos [as] preocupações das pessoas comuns” porque ao “trazer a sociedade lisboeta”, evidenciam-se “os problemas do quotidiano das pessoas, e não há problema maior que a alimentação e o abastecimento”, ressalva a professora catedrática. Estes problemas são divididos em três temáticas: pão, água e carne. Cada eixo é pautado de recursos a objetos da época, como utensílios de cozinha, facas, louças, fósseis de animais e documentos importantes para compreender a época.

É ainda possível assistir a um filme produzido pela videoteca sobre o espólio do Arquivo Municipal de Lisboa. Neste arquivo estão armazenados “milhões de peças, não são milhares, são milhões”, afirma Amélia Aguiar Andrade que, por essa razão, se considerou “importante divulgar esse património arqueológico que é incomensurável”.

O que pode encontrar na exposição

A professora e investigadora do IEM destaca algumas das peças que podem ser vistas e que têm um valor intrínseco para a história da cidade. Logo à entrada da exposição, pode encontrar um marco armoriado, uma peça rara que delimitava jurisdicionalmente a cidade: “Aquele é do século XIV, é certo, tem as armas muito esbatidas, mas é uma peça muito curiosa e muito interessante”.

Outra peça importante é o Livro das Fortalezas de Duarte de Armas “que raramente sai da «casa forte», da Torre do Tombo, porque é um códice [livro] muito delicado”, aponta. Também o Livro dos Pregos, disponibilizado pelo Arquivo Municipal de Lisboa, é outra sugestão. Este livro reúne documentação de cariz régio, sentenças e outros documentos de utilização prática no concelho. O Livro Carmesim (1486-1795), com a “iluminura dos corvos e da barca, tem um valor muito simbólico”, destaca.

Também se pode observar, pela primeira vez em Portugal, o Livro das Posturas de Lisboa do século XIV. Este livro revela as regras, os costumes e as leis da cidade na Idade Média, documento cedido pelo Archivo Real y General de Navarra.  A réplica do Panoramic View of Lisbon, cujo original se encontra na biblioteca da Universidade de Leiden, é outras das peças que podem ser observadas. Esta constitui uma reprodução de Lisboa “absolutamente fabulosa, de pormenor, de informação”, enfatiza a investigadora.

Nesta exposição encontra-se também o pergaminho de 1383, adquirido recentemente pela Torre do Tombo no website OLX. O conteúdo do documento “não veio trazer novidade” porque já se conhece “esse conteúdo por outras versões”, refere a professora, mas é a primeira vez que este documento está visível ao público em geral.

Para além dos materiais expositivos, colocados harmoniosamente na sala de modo a enquadrar o visitante nas temáticas, os objetos arqueológicos são outro ponto alto: “é uma seleção muito criteriosa que trouxe peças de grande qualidade, quer as que estão na exposição do castelo [de S. Jorge], quer das do local”, indica Amélia Aguiar Andrade. No fim da exposição, estão escritas na parede as assinaturas dos carniceiros, que “também traz as pessoas para os nossos dias”.

Esta exposição é fruto de uma parceria entre o IEM e a Câmara Municipal de Lisboa (CML) para o estudo do espólio do Arquivo Municipal de Lisboa. Desta sinergia resultaram colóquios, workshops e ainda um número para os cadernos do Arquivo Municipal. A unidade de investigação da NOVA FCSH contou, ainda, com a colaboração de alunos de licenciatura e de mestrado, bem como um bolseiro para a análise do espólio.

“Pão, Carne e Água: Memórias de Lisboa Medieval” está patente ao público até dia 26 de julho de 2019, no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. A entrada é gratuita.

 

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APRENDER SOBRE LISBOA NA NOVA FCSH 2017/2018

Tempos e cidades (1.º semestre)
Unidade curricular do mestrado em Estudos Urbanos, aberta a alunos externos. [Saiba +]

História de Lisboa Medieval (1.º semestre)
Unidade curricular do mestrado em História, aberta a alunos externos. [Saiba +]

A cidade na cultura oitocentista (2.º semestre)
Unidade curricular do mestrado em História da Arte, aberta a alunos externos. [Saiba +]

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