19 Outubro, 2019

De São Sebastião às Portas de Santo Antão

O caminho que as varinas percorriam da Ribeira ao cimo das Avenidas Novas, com canastras de peixe fresco à cabeça, revela muitos locais, passa por baixo de viadutos e faz-se entre ruas estreitas e casas vestidas de azulejos e flores.

São pouco conhecidos os caminhos que percorriam as varinas de Lisboa, apregoando o peixe fresco, vindas da ribeira até aos limites da cidade. Este roteiro parte de um dos seus pontos de chegada e é (quase sempre) a descer. Junte-se a esta visita guiada por Nuno Pires Soares, docente e geógrafo da NOVA FCSH, e saiba mais ao clicar nos links ao longo do roteiro. Se quiser explorá-lo interativamente, encontra o mapa no final.

1 . Largo de São Sebastião da Pedreira

Igreja de São Sebastião da Pedreira

Durante vários séculos, o Largo de São Sebastião da Pedreira era uma das saídas da cidade, para norte. Este largo empedrado, com edifícios oitocentistas, tem a presença do Palácio Vilalva, a relembrar o limite da cidade no século XVIII. O Largo de São Sebastião é paralelo às Avenidas Novas, zona planáltica que começou a ser urbanizada na viragem para o século XX. Pode ver a data de finalização da maioria dos edifícios nas suas portas principais.

Continue a descer pela Rua de São Sebastião e repare que algumas traseiras dos prédios são do tipo “gaioleiro”, que correspondem a uma tipologia construtiva já muito adulterada da gaiola da época pombalina, explica Nuno Pires Soares.

2. Viaduto do Largo de Andaluz

Viaduto do Largo de Andaluz

Descendo pela Rua de São Sebastião da Pedreira, encontra o primeiro viaduto, sob a rua Filipe Folque, e não longe um segundo viaduto, no Largo de Andaluz, que sustenta uma parte da Avenida Fontes Pereira de Melo. Henrique Sabino foi o seu autor e a estrutura ficou concluída em 1900.

Na segunda metade do século XX, o viaduto foi adaptado para a passagem do metropolitano que se expandia para Entrecampos, entre as estações de Picoas e Marquês de Pombal. Ao atravessar esta estrutura, no Largo de Andaluz, olhe para trás e repare como tem uma perspetiva diferente do Palácio SottoMayor que se destaca na Avenida Fontes Pereira de Melo.

Talvez não se aperceba de que está nas traseiras da rotunda do Marquês de Pombal. No seu lado direito pode ver o Chafariz do Andaluz, inaugurado em 1336, que servia para saciar a sede aos animais que palmilhavam este caminho secundário. A fonte mudou de sítio, no largo, para serem construídos novos edifícios sem se perder o património histórico.

3. Da Rua de Santa Marta à igreja do Sagrado Coração de Jesus

Convento de Santa Joana

Continue a descer o Largo do Andaluz e vai entrar na Rua de Santa Marta onde, camuflado entre prédios, surge o Convento de Santa Joana, extinto em 1890. O antigo convento integrou um projeto urbanístico que permitiu a abertura da Rua Camilo Castelo Branco e da Avenida Duque de Loulé. O projeto Lx Conventos, da NOVA FCSH, conta a história deste imóvel que vai ser em breve reconvertido em hotel de luxo.

Numa pausa do circuito das varinas, suba pela Rua Camilo Castelo Branco e entre na porta número quatro. Suba as escadas de um edifício moderno e visite a igreja do Sagrado Coração de Jesus, da autoria dos arquitetos Nuno Portas, Nuno Teotónio Pereira, Pedro Vieira de Almeida e Luís Vassalo Rosa. Demorou cinco anos a ser construída, entre 1962 e 1967, e só foi oficialmente inaugurada em 1970. Conquistou o prémio Valmor em 1975 e é uma obra arquitetónica  que se destaca pela qualidade conceptual. Repare, por exemplo, como foi considerada a iluminação natural.

4. Claustro e jardins do Hospital de Santa Marta

Jardins do Hospital de Santa Marta

Retornando à Rua de Santa Marta, pode ver a Universidade Autónoma de Lisboa nas instalações do Palácio dos Condes de Redondo, classificado como Imóvel de Interesse Público. Caminhe 100 metros e entre no Hospital de Santa Marta, não por emergência hospitalar, mas para observar a beleza dos jardins do claustro do antigo Convento de Santa Marta, extinto em 1890. Veja também os painéis de azulejos da segunda metade do século XVIII que se encontram numa das entradas do Hospital. Neles está representado um altar a Nossa Senhora da Salvação, da autoria de Francisco de Paula e Oliveira.

Deixando o antigo convento de Santa Marta, e continuando a descer, vai cruzar-se à sua direita com a Travessa do Enviado de Inglaterra. Nome genérico e singular, alude aos diplomatas ingleses que viveram em Lisboa durante séculos. Continue na Rua de Santa Marta e explore agora uma Lisboa ainda menos conhecida.

Vire para a esquerda, na Travessa Larga e depois para a direita, na Rua do Cardal de São José. Está numa rua paralela à Avenida da Liberdade, a uns escassos 300 metros da mesma, e num ambiente radicalmente diferente do antigo Passeio Público. Ao continuar a descer a Rua do Cardeal de São José, repare na Rua da Metade no seu lado esquerdo, uma rua sobrevivente do terramoto de 1755.

No final desta rua, desça para a Rua de São José e atente na igreja de São José dos Carpinteiros, reedificada depois do terramoto de 1755. Hoje, está classificada como Imóvel de Interesse Público. O Largo da Anunciada, 300 metros mais à frente, é sítio da Leitaria da Anunciada, conhecida pelos seus azulejos. Dava pelo nome de Vacaria Andrade, e era prática os leiteiros saírem à rua com as vacas e ordenhá-las à porta de casas e igrejas.

5. O Torel, a Pena e o berço de Amália Rodrigues

Casa onde nasceu Amália Rodrigues

Se já recuou no tempo com a Leitaria da Anunciada, também o vai fazer ao contemplar o funicular do Lavra, o mais antigo da cidade, inaugurado em 1884. Suba até ao Torel para uma outra experiência lisboeta. Se preferir fazer o exercício do dia, suba as escadas do funicular ou utilize o Elevador do Lavra e aproveite a curta viagem.

No topo, encontra a Calçada do Lavra, junto à Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa. Caminhe para a esquerda, para a Rua Júlio de Andrade, em direção ao miradouro do jardim do Torel. Inaugurado na década de 1960 usufrui de uma ampla vista sobre a Avenida da Liberdade, o Rossio, a Baixa e o rio, e para a colina de São Pedro de Alcântara, em frente. Requalificado em 2009, este miradouro tem atualmente um alojamento local como vizinho.

Entre árvores frondosas e casas senhoriais do século XIX, está num dos ambientes mais românticos de Lisboa. Depois de relaxar com a sombra e a vista sobre Lisboa, regresse à Calçada do Lavra e percorra 250 metros até à Travessa do Adro e siga para a Calçada de Santana.

A descer, antes de entrar na Igreja da Pena, do seu lado direito, olhe para o chão e verá uma pena embutida na pedra. Não é comum as igrejas terem a sua identificação representadas desta forma. Continuando a descer a calçada de Santana, descubra uma parte da Cerca Fernandina, escondida entre casas que dela se apropriaram. Faça um outro desvio do seu lado esquerdo: entre na Rua de Martim Vaz e visite o pátio da casa onde nasceu Amália Rodrigues, no número 86.

6. Do Convento da Encarnação até à Igreja de São Domingos

Igreja de São domingos

Retomando a Calçada de Santana, vire à direita na Travessa do Convento da Encarnação. Pare uns minutos e observe o Convento da Encarnação, um dos primeiros a ser reconstruído depois do terramoto de 1755. Mandado erguer no reinado de D. Filipe II de Portugal, em 1630, é hoje classificado como Imóvel de Interesse Público. Observe também como se encaixa com os prédios à sua volta.

Caminhe 100 metros e vire na Travessa de Santana, desça pelas Escadinhas da Barroca e entre pelo Pátio do Salema. Vai encontrar o Largo de São Domingos, onde se situa a Igreja de São Domingos e o memorial das vítimas do massacre judaico de 1506. Esta homenagem foi inaugurada 500 anos depois, a 19 de abril de 2008.

Está junto do Rossio, no coração de Lisboa, e está no início da Rua das Portas de Santo Antão, a rua que termina no Largo da Anunciada. Se tiver ainda energia, pode percorrer o roteiro “Portas de Santo Antão: em busca dos notáveis”.

Garantimos que vale a pena, pela diversidade de edifícios históricos que vai encontrar. Se deixar para outro dia, tem por aqui muito por onde descansar deste circuito de cerca de sete quilómetros.

Explore este roteiro de forma interativa aqui:

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O PROJETO

Uma nova forma de conhecer Lisboa
+ inovadora + visual e + interativa
a partir do que se investiga na NOVA FCSH. [Saiba +]

APRENDER SOBRE LISBOA NA NOVA FCSH 2017/2018

Tempos e cidades (1.º semestre)
Unidade curricular do mestrado em Estudos Urbanos, aberta a alunos externos. [Saiba +]

História de Lisboa Medieval (1.º semestre)
Unidade curricular do mestrado em História, aberta a alunos externos. [Saiba +]

A cidade na cultura oitocentista (2.º semestre)
Unidade curricular do mestrado em História da Arte, aberta a alunos externos. [Saiba +]

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