13 Dezembro, 2018

A violência em Lisboa, que se esconde entre quatro paredes

Em 2006, as campanhas contra a violência conjugal e doméstica encorajaram várias mulheres a denunciar esta realidade e a colocar um ponto final numa história entre quatro paredes. Só em Lisboa, a PSP recebeu, nesse ano, 11.638 chamadas. Em 2010, este número quase duplicou.

Estes números surpreenderam Paula Isabel Monteiro que traçou, na sua tese de mestrado em Sociologia (2012) da NOVA FCSH,  o retrato das vítimas de violência e dos agressores, através da análise das denúncias feitas à Polícia de Segurança Pública (PSP) em 54 freguesias de Lisboa, nos primeiros sete meses de 2006.

Dos 481 casos que analisou, a investigadora percebeu que era um “mito” o facto de  as mulheres menos instruídas e mais velhas serem as mais violentadas. A violência conjugal é transversal a todas as faixas etárias e estratos sociais, apesar de ser em menor percentagem: “É interessante perceber que as mulheres vítimas do seu parceiro amoroso, e que chegam ao conhecimento da Polícia, são mulheres com um razoável, tendencialmente, elevado nível de instrução”.

Estas vítimas têm idades entre os 14 e os 65 anos, com vários níveis de instrução académica, desde o ensino básico até ao ensino superior. Contudo, são as mulheres com idades entre os 25 e os 34 anos, com o primeiro ciclo e com atividades profissionais menos qualificadas que representam a maior percentagem de vítimas, apesar de não dependerem financeiramente do parceiro. Já os agressores são, na maioria dos casos, mais velhos que as vítimas. A maior fatia de agressores tem entre 35 e os 44 anos, possui o primeiro ciclo e tem profissões com menos qualificações. Contudo, o espectro das idades vai desde os 18 a maiores de 65 anos. A autora identificou ainda situações de violência em casais imigrantes, com residência em Lisboa.

Os casos de violência conjugal acontecem, na sua maioria, entre quatro paredes. O lar é o local escolhido para as agressões, que ocorrem entre as 19 horas e a uma da manhã. Se não for em casa, é no carro. São os espaços mais “íntimos”, mas que acabam por ser aqueles que as vítimas querem evitar. Porque a violência pode ter várias caras: pode ser física, psicológica, física e psicológica e simultaneamente psicológica, física e sexualmente abusiva.

Nos autos da PSP analisados pela autora, é constatado que as mulheres em união de facto são aquelas que têm mais probabilidade de sofrer de violência física, enquanto que as mulheres casadas acabam por ser violentadas psicologicamente. “Muitas vezes, as mulheres desvalorizam as agressões psicológicas, mas elas são um prenúncio a outras que vêm a seguir, geralmente de carácter físico”, considera a autora.

As denúncias de abusos sexuais no casal são ainda diminutas: a investigadora alerta para a dificuldade das próprias vítimas em entender os abusos sexuais na conjugalidade como uma violência. “Se estão com o parceiro que em determinada altura escolheram, ele tem o direito de se satisfazer e ela o dever, como ‘esposa’, de o saciar, vendo nisto uma pura obrigação.”

 

Escrito por
Ana Sofia Paiva
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Unidade curricular do mestrado em História, aberta a alunos externos. [Saiba +]

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