Como era Lisboa em 1514?

Multicultural, exótica, tão grande como Bruges e sem fechaduras nas portas das muralhas. Esta é uma das raras descrições de Lisboa no tempo de D. Manuel I.

Na Páscoa de 1514, Jean Taccoen, senhor de Zillebeke (Flandres), empreendeu uma viagem a Jerusalém, com paragem em Lisboa durante nove dias. O manuscrito com o relato das suas observações da capital portuguesa estava confinado à Biblioteca Municipal de Douai, em França. Em 2015, foi traduzido para português e publicado no livro “Lisboa em 1514: O Relato de Jan Taccoen van Zillebeke” (Humus, 2015), coordenado por Jorge Fonseca, investigador do Centro de História d’Aquém e d’Além Mar, da NOVA FCSH.

No texto original, de 12 páginas, o nobre flamengo dá conta de uma capital europeia animada e povoada por “muitos animais e gente estranha”. Escravos, judeus, cristãos, turcos e “outros infiéis” partilham a cidade. “Existem tantos judeus como cristãos, que é de admirar, os quais têm grande poder sobre o rei e a cidade”, sublinha Taccoen, referindo-se aos judeus tornados cristãos (cristãos-novos) após o édito de expulsão de judeus e mouros de 5 de dezembro de 1496.  Os elefantes passeiam pacificamente nas ruas, onde se concentram vários ofícios e mercadorias, ladeadas por casas brancas, altas e de pedras. Lisboa é sede militar, da corte e da cristandade: Jean Taccoen testemunha a chegada de homens das terras de Calecute para se batizarem e converterem ao catolicismo.

Além do manuscrito em francês da época e traduzido para português, e do texto de Jorge Fonseca, que ajuda a compreender o próprio relato da Lisboa manuelina, o livro inclui contributos de investigadores belgas: Eddy Stols retrata a cidade de Lisboa como um dos principais polos de atração de artesãos e artistas flamengos; Stijn Manhaegen contextualiza a vida de Jan Taccoen.

Legenda da imagem: “Lisbon, the Rua Nova dos Mercadores”, 1500-1600. © Society of Antiquaries of London.

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