Nem o Estado Novo conseguiu reprimir Almada Negreiros

Em março de 1934, Almada Negreiros insurge-se contra o uso da arte como propaganda dos regimes fascistas, numa altura em que os artistas, por falta de rendimentos, respondiam a encomendas do Estado Novo.

“Não se deixem inebriar pela sua capacidade de artifício, e antes encontrem a sua verdadeira e madura expressão individual.” Este foi o apelo de Almada Negreiros a um olhar diferente sobre a obra de Filippo Tommaso Marinetti (1876-1944), considerado o pai do Futurismo.

O apelo foi feito na conferência “Cuidado com a Pintura!”, que decorreu na Sociedade Nacional de Belas-Artes, em março de 1934, e muitos outros contra a apropriação política da arte se seguiram, como refere Mariana Pinto dos Santos, investigadora do Instituto de História da Arte da NOVA FCSH, na edição especial da revista do Instituto (p. 314-321) dedicada a este artista.

Em 1932, Almada Negreiros já tinha mostrado o seu desagrado face à instrumentalização da arte modernista num artigo publicado no Diário de Lisboa, intitulado “Um ponto no i do futurismo”. Contesta precisamente Marinetti  numa acusação “de enorme violência e repulsa pela oficialização fascista de uma arte que Almada entendera ser uma profunda rutura com sistemas instituídos”, esclarece a investigadora.

Também no espólio da família foi encontrado um manuscrito de 1936 nunca publicado, no qual o artista critica António Ferro, Diretor do Secretariado da Propaganda Nacional.  Com o título “Não, António Ferro, não”, nele Almada denuncia a “apropriação abusiva do modernismo como arte de Estado e a atitude de Ferro ao tomar para si, não menos abusivamente, os louros de uma posição de chefia do modernismo português”, afirma Marian Pinto dos Santos.

De facto, os regimes fascistas emergentes apropriaram-se da arte modernista através da propaganda. A investigadora refere que vários artistas “responderam a encomendas do Estado Novo, situação aliás comum, uma vez que poucas outras fontes de rendimento haveria.”

Para Almada, contudo, a pintura era considerada “a mais excelente de todas as disciplinas individuais”, pois permitia-lhe ser livre. A liberdade era uma condição da modernidade, conseguida através do “fazer artístico, no estado de admiração permitido pela condição de ingenuidade, na capacidade de recuperar, com esse estado, o saber essencial da ordem do universo”.

Nessa condição, o artista procurou realizar trabalhos à margem, por ele considerados livres, sendo um dos mais icónicos o retrato de Fernando Pessoa, encomendado em 1964 pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Noutros trabalhos, realizados sob encomenda oficial, não deixou contudo de deixar marcas da sua liberdade criadora e interpretativa, como é o caso dos Painéis das Gares Marítimas de Alcântara e da Rocha de Conde Óbidos.

Imagem: Auto-retrato, Almada Negreiros, 1926.

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