Janelas com escritos

Até quase aos finais do século XX, Lisboa foi uma cidade de escritos nas janelas e de inquilinos que mudavam de casa a cada seis meses, desejosos de contrariar a monotonia do quotidiano.

O Código Civil Português (1867) foi o primeiro documento legal a definir, no contexto da habitação, os direitos e obrigações dos senhorios e arrendatários, e o arrendamento dos prédios urbanos. O artigo 1623º determinava que, não tendo sido determinado o tempo do contrato, entender-se-ia que tinha sido feito por um semestre ou por um ano.

O mesmo código determinava que, segundo os costumes, os arrendatários que desejassem deixar as casas deveriam colocar uns escritos nas janelas, indicação que todos reconheciam, pelo menos em Lisboa, de que aquela casa iria vagar ou já se encontrava vaga. Era, por isso, usual passear pelas ruas de Lisboa e encontrar janelas com quadrados de papel branco nas janelas – identificação instantânea de casa para alugar. Esta prática manteve-se até quase aos finais do século XX.

Dada a duração dos contratos de arrendamento, as mudanças de casa eram um lugar-comum entre os portugueses que viviam com gosto essa prática, principalmente as mulheres donas-de-casa que, confinadas ao lar no dia-a-dia, desejavam mudar de ares e começar uma vida nova, numa tentativa de alterar a monotonia. Esta é a conclusão de Margarida Acciaiuoli, da NOVA FCSH, que traça no livro “Casas com Escritos – Uma História da Habitação em Lisboa” (Ed. Bizâncio, 2015) a história da habitação de Lisboa, desde 1755 até ao século XXI.

A historiadora de arte recupera uma passagem de Ramalho Ortigão (Folhas Soltas, 1865-1915) que reflecte como “mudar de casa” produzia a mesma sensação que “mudar de ano”: “Quando formos para a casa nova reforma-se a nossa vida, recobraremos a serenidade e a alegria, há-de remoçar-se-nos o contentamento e o amor, há-se consolar-nos a esperança, há-de rir-nos o trabalho”.

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