Lisboa no cinema americano da II Guerra Mundial

No início dos anos de 1940, Hollywood colocou Lisboa no seu cinema. Um historiador da FCSH/NOVA traça o retrato da capital que aí aparece: lugar de passagem para refugiados, palco para espionagem e paraíso seguro em tempos de guerra.  

Certamente que o filme Casablanca (1942), protagonizado por Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, vem de imediato à memória de cinéfilos, com Lisboa tantas vezes mencionada e nunca visionada. Ilsa e o marido são dois dos milhares de refugiados que procuravam escapar da guerra que deflagrava pela Europa. Um artigo de Rui Lopes, do Instituto de História Contemporânea da FCSH/NOVA, revela que houve muitos mais filmes, numa conjuntura política que ajudou o regime de Salazar a aparecer diferente aos olhos do mundo.

A crise dos refugiados europeus tinha-se iniciado no verão de 1940 e entre eles encontravam-se muitos profissionais da indústria do cinema. Lisboa estava na rota para alcançarem os Estados Unidos. O primeiro filme americano sobre este tema, a curta-metragem Forbidden Passage (1941), conta a história de um refugiado de passagem por Lisboa, ansioso por se juntar à mulher e filhos já nos Estados Unidos. Outro, Refugiados (1942), narra a saga de um jornalista britânico que tenta colocar nas listas de passageiros de Londres para Lisboa duas crianças que tinham ficado órfãs devido a um bombardeamento alemão.

Nestes filmes, Lisboa era apresentada como mítico ponto de passagem para a Terra Prometida: veja-se Macaco Peludo (1944) ou Um Grito na Tormenta (1944); como antro de espionagem, em Uma Noite em Lisboa (1941) e Uma Mulher Internacional (1941); e como posto privilegiado para correspondentes de guerra, na películas Volta para mim (1941) e Three Hearts for Julia (1942).

E se é verdade que nestas produções a capital portuguesa estava relativamente pouco tempo em cena, outras houve que utilizaram Lisboa e arredores como principal cenário da narrativa. Foi o caso de The Lady Has Plans (1942), uma comédia sobre espiões, ou Tempestade em Lisboa (1944), um thriller passado sobretudo no ambiente cosmopolita do Estoril, mas com uma dramática troca de tiros filmada no aeroporto marítimo de Cabo Ruivo. O caso de maior sucesso foi Os Conspiradores (1944), uma história de intriga e resistência semelhante a Casablanca, reunindo vários dos mesmos atores.

A pesquisa a mais de 12 filmes de ficção norte-americanos que referem Portugal neste período destaca que a combinação do estilo narrativo de Hollywood com a estratégia de propaganda de Washington gerou um olhar benevolente sobre o país, romantizando as condições de vida dos locais e dissociando a evocada ‘neutralidade’ da ditadura de Salazar das suas origens e práticas fascistas e opressivas.

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