Lisboa no cinema português: d’O Pátio das Cantigas a Os Verdes Anos

Mais do que por um género, o cinema português distinguiu-se pela representação do imaginário nacional. Desde as comédias de Lisboa, registo cinematográfico que o Fundo do Cinema Nacional tentou combater com a criação da Cinemateca Nacional, em 1948, e com bolsas de estudo no estrangeiro, passando pela cidade burguesa que aprisionava, Tiago Baptista traça a evolução da representação do país no cinema português.

“O género dominante do cinema português é o próprio cinema português”, afirmou João Bénard da Costa em 2007, a propósito de um ciclo da Cinemateca Portuguesa dedicada aos géneros nacionais. Para o então diretor desta instituição, o cinema português distinguiu-se não por um género, mas pelo retrato do imaginário nacional, no qual Lisboa foi protagonista.

Tiago Baptista, investigador do Instituto de História Contemporânea da FCSH/NOVA, utilizou este ciclo dedicado aos “géneros nacionais” e a afirmação de João Bénard da Costa como mote para explorar neste artigo (2009) a representação do imaginário coletivo do país no cinema português que protagonizou, segundo o cinéfilo, grande parte da sua história.

Se, numa primeira fase, no início dos anos de 1920, foram os conceitos de ruralidade, tradição e história que o cinema português agarrou para construir a identidade nacional, uns anos mais tarde a oposição “campo-cidade” marcou as comédias sonoras. Lisboa era por excelência a protagonista desse espaço urbano, de tal forma que vários autores preferem a expressão “comédias de Lisboa” do que “comédias à portuguesa” para designar estes filmes, salienta Tiago Baptista. Lisboa era, na altura, o mais importante mercado cinematográfico interno, o que pode explicar o número de vezes que é representada no cinema português.

No entanto, a Lisboa destas comédias nada tinha que ver com a realidade urbana e sociológica da capital, argumenta o investigador. A cidade retratada estava organizada em “aldeias”, onde todos se conheciam como os camponeses dos filmes mudos. O escritor António Ferro chega mesmo a dizer que as comédias dos anos de 1930 e 1940 eram o “cancro do cinema nacional”, cita Tiago Baptista.

Para combater a redução do cinema português às comédias populares e apoiar o cinema como arte, o regime salazarista criou, em 1948, o primeiro sistema de apoio à produção cinematográfica. O Fundo do Cinema Nacional financiaria bolsas de estudo para realizadores portugueses no estrangeiro e criaria, nesse ano, a Cinemateca Nacional (agora chamada Cinemateca Portuguesa) destinada a fomentar o gosto pelos filmes portugueses.

Nesse período, coexistiram duas correntes cinematográficas em Portugal: de um lado, as comédias populares, com Lisboa como pano de fundo, de que O Pátio das Cantigas, de António Lopes Ribeiro, é paradigma; do outro, filmes histórico-literários de prestígio, como Camões de Leitão de Barros.

No início dos anos de 1960, dois filmes inauguram uma nova perspetiva da cidade: Os Verdes Anos, de Paulo Rocha, e Belarmino, de Fernando Lopes. Os protagonistas são socialmente desenquadrados das multidões e marginalizados pela cidade burguesa, “metáfora perfeita da prisão social”, retratada pelos bairros modernos da Avenida de Roma ou pelas ruas da Baixa.

Desprezados, no entanto pelas plateias, que continuavam a preferir as comédias lisboetas, alguns realizadores começam a adotar Manuel de Oliveira como referência – “um cinema de olhos postos no estrangeiro, mas sem nunca virar as costas à realidade cultural do país”. Nos anos seguintes, este cinema novo iria interessar-se pelas condições de vida dos operários e agricultores, e redescobrir o mundo rural. Nos anos de 1980, iria reavaliar a identidade nacional do país e partir para a Europa, para que esta pudesse, salienta Tiago Baptista, descobrir o cinema português, ao mesmo tempo que Portugal se descobria como país europeu.

Legenda da imagem: cena emblemática d’O Pátio das Cantigas. Narciso (personagem interpretada por Vasco Santana) enceta um diálogo com o candeeiro, proferindo a célebre afirmação “Estás com medo que eu seja cão e que te humedeça a base”.

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