Livro do mês #abril’18: a Revolução na brasa

O 25 de Abril de 1974 teve episódios de verdadeira festa popular que são quase desconhecidos. Eis uma história que não se pode ler neste livro e por uma excelente razão.

Os autores de Lx 70. Lisboa, do sonho à realidade (Dom Quixote, 2014) nunca tiveram dúvidas de que a capa seria uma fotografia do 25 de Abril: a escolha óbvia para retratar a década de 1970. Nunca imaginaram é que seria uma decisão tão fácil e ainda por cima se transformaria no que Joana Stichini Vilela, antiga aluna de Ciências da Comunicação da NOVA FCSH e uma das três mãos que assinam o livro, apelida de “biscoitinho”.

Vamos por partes, nesta viagem pelos últimos anos do Estado Novo e pelos primeiros tempos da democracia. Neste livro, tanto se espreitam casas alcatifadas, se fala de atentados à bomba — e foram vários a sobressaltar a cidade por esta altura — como se conhecem os bares de todas as conspirações, além de se avaliar o grau de pilosidade que povoava muitos rostos masculinos.

É um retrato bem humorado, em grande medida pela interpretação gráfica muito particular que é feita da realidade. “Os nossos livros [Lx60, Lx70, Lx80] sempre procuraram mostrar a história quotidiana, a vida feita de pequenos nadas, muito para além dos grandes acontecimentos”, conta Joana. Nesta linha de pensamento, era fundamental que a capa refletisse a vontade dos criadores. “Foi uma sorte de repente termos uma imagem de um 25 de Abril que nunca tínhamos visto. Uma foto de celebração, muito descontraída, de pessoas comuns. Não tivemos a mínima dúvida de que seria esta.”

Estavam longe de poder adivinhar — e contar — a sua história. Numa obra recheada de relatos originais, Joana Stichini Vilela, Pedro Fernandes e Nick Mrozowski conseguiam o feito de criar uma capa que só se revelaria depois de o livro estar à venda.

Tratava-se de um grupo de amigos que ainda nem sequer tinham acabado o liceu e que, como muitas outras pessoas, decidiram juntar-se espontaneamente na Av. da Liberdade. Quarenta anos depois, um desses miúdos ficou espantado a olhar para um escaparate de uma livraria de Cascais. Desconhecia a existência da foto, mas lembrava-se muito bem de ter subido com dois amigos para uma das carrinhas que andavam a circular em cortejo. A multidão tinha saído à rua a celebrar a democracia.

Foi uma surpresa para Joana Stichini Vilela. “Não fazia ideia de que as pessoas tinham ido festejar para a Av. da Liberdade. Foi inacreditável sermos contactados por um daqueles rapazes da foto. Apesar de já não serem muito próximos, ainda sabiam uns dos outros.”

Assim, houve um momento verdadeiramente inesperado para quem assistiu à apresentação do livro e pôde ouvir o relato destes três homens, que se juntaram a reavivar memórias. Recordavam-se de ter andado para cima e para baixo na avenida e de haver uma zona, perto dos Restauradores, onde se viam uns grandes clarões. Provavelmente eram dos flashes dos fotógrafos das agências internacionais. “Ainda ficámos a saber que naquela noite havia fogueiras onde se assavam frangos e chouriças, partilhados por todos — uma verdadeira festa popular”, remata a autora. Graças a uma foto que resistiu para contar a história.

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