“Não toquem na minha Alfama” – segredos de uma marcha popular vencedora

Alfama está “cheia de gente”, afirmava Nuno Lopes, encenador e figurinista da Marcha de Alfama, em março de 2017. Gente “passageira”, pessoas de fora que expulsam as de dentro. Esse foi o conceito que norteou a participação deste bairro no concurso de Marchas Populares de Lisboa em junho, do qual se sagrou vencedor. Futuras antropólogas da NOVA FCSH estiveram no terreno a descobrir os segredos da face espetacular da marcha – os figurinos.

Nos dois meses que antecedem o concurso das marchas populares de Lisboa, os marchantes de Alfama ensaiam todos os dias da semana, entre as 21h30 e as 23h30, no Centro Cultural Dr. Magalhães Lima, com Vanessa Rocha. Participar neste espetáculo é uma forma de reforçar o sentimento de pertença a um bairro  – mesmo que já não vivam lá –  ameaçado pelo turismo.

Os figurinos começam também a ser desenhados por Nuno Lopes muito tempo antes e, tal como a coreografia, cenografia ou composição, estão literalmente no segredo dos deuses. Ana Manhique, Maria Cardoso e Maria Teresa Martins, finalistas da licenciatura em Antropologia da NOVA FCSH, acompanharam durante quase três meses os preparativos de uma marcha que só foi revelada na noite de 12 de junho, no Meo Arena.

Os figurinos contam um terço da classificação e Nuno Lopes sabe que extravagância, originalidade dos materiais e articulação com o tema são critérios fundamentais. Além destes, o atual figurinista da marcha de Alfama tem tentado “sair do popular” e ir ao encontro de um traje “mais glamouroso”.

Além do figurinista, há outra figura essencial em todo o processo criativo: Rosarinho, a costureira-mestra. É ela que sabe como a saia da marchante deve ser estruturada para certos passos de dança ou que tecidos caem melhor. De março a junho, foram confecionados 68 fatos para marchantes, músicos, aguadeiros, mascotes da marcha e padrinhos que, neste ano, foram novamente Cinha Jardim e João Baião.

“A identidade e intimidade requerida na indústria criativa das marchas exige mais do que meras máquinas operativas capazes de memorizar moldes”, afirmam as futuras antropólogas que observaram como os tecidos pouco convencionais – determinantes para a vitória – não são conhecidos pela máquina de costura. Um deles é a EVA, uma espuma vinílica acetinada, fácil de moldar, coser e aplicar. Há também desenhos estampados feitos em tipografia, entretelas, malhas forradas ou tubos de isolamento de canos que estruturam a roda das saias.

A falta de pessoas jovens para fazerem este trabalho de costura, muito específico no meio artístico, levou o Centro Cultural Dr. Magalhães Lima a criar uma Escola de Marchantes, cuja abertura está prevista para setembro, avança o Público.  A escola terá aulas de cenografia, desenho de figurinos, costura, música e outras áreas essenciais à criação de uma marcha. Alfama irá também acolher o Museu da Marcha, que terá em exposição o espólio das marchas deste bairro desde 1983.

 

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