O Natal de Lisboa em 1821

Marianne Baillie, poetisa e escritora de viagens inglesa, viveu em Portugal entre 1821 e 1823. Na carta que escreveu à sua mãe em 28 de dezembro de 1821 relata a forma fria como os lisboetas passaram o Natal desse ano.

O Natal não parece ser celebrado com muita alegria por aqui”, refere Marianne Baillie numa das 65 cartas endereçadas à sua mãe, compiladas no livro Lisbon in the years 1821, 1822 and 1823 (London: John Murray, 1825), disponível em formato digital na Biblioteca Nacional.

Diz a escritora inglesa, autora de dois livros de poemas e outros dois de escrita de viagens, que o único “espírito da época” culminou em “melancólicas e discordantes trombetas” tocadas por orquestras que iam de casa em casa desejar Boas Festas em troca de uma gratificação pecuniária; também membros do clero pediam esmolas por esses dias.

Mesmo na festa de Natal grandiosa para a qual ela e o marido, Alexander Baillie, tinham sido convidados, Marianne nota que a genuína animação do espírito natalício e a calorosa hospitalidade, próprios desta quadra, estavam reprimidos pela “influência enregelante do escarninho demónio do ultra-refinamento”. Um exemplo que a escritora refere é o traje espanhol usado por duas senhoras na festa: sumptuoso, mas sombrio e todo preto, composto por um corpete e saia, muitas franjas e um comprido véu de renda posto sobre a parte de trás da cabeça e cruzado no peito do lado esquerdo.

Porém, Marianne não deixa de sublinhar a “esplendorosa missa da meia-noite”, na véspera de Natal, celebrada na Igreja do Loreto, no Largo do Chiado, as missas particulares comemoradas em quase todas as casas, e a forma harmoniosa como, à meia-noite do dia 24, todos os sinos dos diferentes conventos deram uso às suas “línguas de ferro”.

Além de Marianne Baillie, foram vários os viajantes anglófonos que descreveram Lisboa nas suas obras, entre os séculos XVIII e XX. Conheça-os acedendo ao website do projeto “Viajantes Anglófonos em Portugal”, da responsabilidade do CETAPS – Centre for English, Translation and Anglo-Portugueses Studies da NOVA FCSH.

Aproximação ao traje espanhol e véu (“mantilla”) descritos por Marianne Baillie. Rainha Maria Luísa de Espanha, 1799. Goya, Palácio Real de Madrid. Créditos: Album / Art Resource, NY, óleo em tela).

Legenda da imagem de destaque: fachada principal e lateral da Igreja do Loreto [ant. 1895]. Fotografia de Francesco Rocchini (Arquivo Fotográfico de Lisboa).

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