16 Novembro, 2019

O último suspiro literário de Pessoa à revista Orpheu

Vinte anos depois da publicação da revista Orpheu, e no mesmo ano da morte de Fernando Pessoa, foram publicados textos inéditos do poeta e de colaboradores na revista Sudoeste. “Nós os de Orpheu” são as últimas palavras publicadas de Pessoa, numa nota editorial.

Corria o ano de 1935 e assinalava-se o vigésimo aniversário da extinta revista Orpheu. Almada Negreiros anunciava, no segundo número da revista Sudoeste, a colaboração com os escritores de Orpheu e Presença para celebrar a efeméride. Mas a edição seguinte iria não só assinalar esta data, como adquirir outro significado: a publicação de dois textos inéditos de Fernando Pessoa, que faleceria em novembro desse ano.

“Nós os de Orpheu” constituiu a última nota editorial publicada pelo poeta memorizando “as suas derradeiras e, nesse sentido, definitivas palavras sobre Orpheu”, escreve Rita Patrício, investigadora do Instituto de Estudos de Literatura e Tradição (IELT) e docente da NOVA FCSH, neste artigo (2015). Apesar de ser assinada por Pessoa, o poeta identifica Almada Negreiros como co-autor da mesma.

Escrita de forma informativa, a nota editorial esclarece a ausência de textos inéditos de três colaboradores da Orpheu. A distância do oceano justifica o afastamento dos brasileiros Ronald de Carvalho e Eduardo Guimaraense, e do poeta Armando Côrtes-Rodrigues. Pessoa ainda ponderou incluir o poeta açoriano mas preferiu não o fazer: a poética pós-Orpheu de Côrtes-Rodrigues já não se identificava com a que escrevia à época da revista, crítica que se reflete na nota editorial.

Mas as palavras de Pessoa não se dirigiram a todos os escritores da Orpheu. José Pacheco e Santa-Rita Pintor não foram mencionados pelo poeta e não fizeram parte desta edição comemorativa. Contudo, a revista Sudoeste decidiu mencioná-los num apontamento adicional. Ângelo Lima, por outro lado, foi incluído nesta edição, onde Pessoa escreve que o soneto, “aquele extraordinário soneto – um dos maiores da língua portuguesa – em que o poeta descreve a sua entrada na loucura, em que longos anos viveu e em que morreu”, cita Rita Patrício, não era original mas, na sua opinião, devia ser relembrado.

Na seção dedicada à revista Presença, nesta terceira publicação da Sudoeste, a nota editorial é assinada por João Gaspar Simões. Intitulada “Nós a Presença”, em muito semelhante ao título de Pessoa, o âmago desta nota centra-se na comparação entre Orpheu e Presença. Gaspar Simões afirma que “Orpheu existiu e que a Presença existe” sugerindo, mais adiante, que “Orpheu nunca existiu”.

Rita Patrício considera que o poema “Conselho”, de Álvaro de Campos, é, em certa medida, uma resposta de Pessoa a Gaspar Simões, “encerrando o debate epistolar sobre poética e crítica de poesia que mantiveram durante a colaboração de Pessoa com a Presença”. Estes últimos dois textos do poeta – a nota editorial e o poema de Álvaro de Campos – traçam ambivalências entre morte, celebração e sobrevivência. São estes aspetos que distanciam Fernando Pessoa da revista Presença, escreve a investigadora.

Orpheu, na visão pessoana, agitou mentalidades e foi alvo de críticas pelo seu conteúdo inovador. O correr do tempo foi o factor mais do que suficiente para Pessoa se remeter ao silêncio sobre a revista. Não era mais necessário falar sobre ela. Na celebração dos vinte anos da Orpheu, a nota editorial do poeta não fazia menção aos grandes feitos: apenas homenageava quem partiu e o que ficou na memória da eternidade.

Pessoa conclui a nota editorial neste tom:

Quanto ao mais, nada mais. Cá estamos sempre. Orpheu acabou. Orpheu continua.

 

Fotografia: Pintura de Almada Negreiros, 1954. Arquivo Fotográfico de Lisboa.

Escrito por
Ana Sofia Paiva
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