Perfil linguístico da Gazeta de Lisboa

A Gazeta de Lisboa, precursora do Diário da República, foi o principal periódico de informação política portuguesa entre 1715 e 1820. Um livro que resulta de um pós- doutoramento da NOVA FCSH traça o seu retrato linguístico.

O jornalismo português fez um longo percurso desde o século XVIII até à atualidade e algumas tendências que marcaram o jornalismo da Gazeta de Lisboa entre 1808 e 1822 são hoje refutadas. As estratégias do discurso linguístico deste periódico, comparadas com as do Correio Braziliense, periódico brasileiro inspirado nas gazetas portuguesas, são traçadas no livro “Corre Voz no jornalismo do início do século XIX” (2012, Paco Editorial), de Janete Bessa Neves, no âmbito de um pós-doutoramento em Linguística na FCSH/NOVA.

A Gazeta de Lisboa era, à data, um misto de opinião e notícia: “Está felizmente concluido terceiro anno de plena paz na Europa, e essa ultimamente consolidada do mais solene modo pelos Augustos Monarcas no Cogresso de Aquisgran”, lia-se nas suas páginas, a 31 de dezembro de 1818.

Este produto híbrido era favorecido pelo uso de marcadores de inferência, como as expressões “parece-nos que” ou “segundo parece” e os verbos “poder” e “dever”. Esta era uma construção frásica normal no jornal português: “Segundo todos os indicios que temos, parece que a Hespanha nos cede a Florida Oriental” (31 de janeiro de 1818).

Percebe-se também por estes exemplos que as notícias eram recheadas de boatos, cartas particulares, rumores e fontes não identificadas. “Ouvimos dizer”, “Corre hum rumor” eram expressões comuns em peças, bem ao modo desta retirada da edição de 23 de janeiro de 1813: “Cada vento, que sopra do Norte, nos traz a noticia de hum triunfo”.

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