25 Agosto, 2019

Pertencer à comunidade cigana do bairro Alfredo Bensaúde

Ser jovem cigano e ambicionar uma profissão como juiz ou médico. Esta foi a maior mudança apontada numa tese de Mestrado da NOVA FCSH sobre a comunidade cigana residente no bairro Alfredo Bensaúde, em Lisboa.

Perceber a realidade da comunidade cigana no bairro Alfredo Bensaúde, através de jovens dos oito aos 18 anos, foi o objetivo de Juliana Segrini na tese de Mestrado em Ecologia Humana e Problemas Sociais Contemporâneos (2011) da NOVA FCSH. No total, foram entrevistados 55 membros da comunidade cigana para tentar perceber as suas vivências e costumes no bairro.

A maior mudança verificada pela investigadora  foi a possibilidade de as crianças frequentarem a escola. Através de uma política de incentivo à educação multicultural, a maioria dos jovens permanece no ensino até completar o secundário, apesar de, em alguns casos, repetirem o ano de escolaridade.

A investigadora salienta ainda que estes jovens procuraram prosseguir os estudos no ensino superior. Dos 55 entrevistados, 44 estudavam e sete simultaneamente estudavam e trabalhavam, o que revela a importância dada à escola. Apenas dois jovens trabalhavam unicamente. As profissões que estes jovens desejavam exercer futuramente passavam, entre outras, por virem a ser juízes, advogados, médicos ou soldados.

A autora assinala que a maioria dos pais dos entrevistados tinha como profissão a venda ambulante em feiras, mas alguns membros da comunidade exerciam profissões “não ciganas”, como cargos de chefia numa empresa, advocacia ou gerência de loja.

O realojamento destas famílias originou pequenas mudanças na comunidade cigana no bairro social. A entrada mais cedo das crianças na escola, a menor presença de rituais ciganos – como os casamentos – e ainda a modernização de outros costumes – como a opção de escolher um parceiro para o matrimónio – começaram, paulatinamente, a integrar mais a comunidade na sociedade civil.

O bairro Alfredo Bensaúde alojou estes indivíduos oriundos, maioritariamente, da zona de Moscavide e da Portela de Sacavém, devido a um programa de reabilitação instituído entre 2001 a 2004. As zonas da Ameixoeira, Olivais e Marvila também foram abrangidas devido às degradantes condições que se verificavam nas habitações. Ainda no âmbito deste programa de realojamento, foram consideradas várias famílias ciganas provenientes de outros pontos do país e quatro de Espanha.

No total, foram construídos 357 fogos, concluídos em 2002. O objetivo deste programa foi fixar famílias que, por várias razões, tinham sido ostracizadas pelos antigos vizinhos, e controlar a sua integração em harmonia com outras etnias presentes do bairro. Contudo, uma das lacunas que a investigadora aponta é a falta de critério da GEBALIS – entidade que faz a gestão dos Bairros do Município de Lisboa – na inclusão destas famílias nas habitações. Essa falta de critério pode originar desacatos entre famílias.

Os conflitos verificados no período de análise de Juliana Segrini não se revelaram graves. Mais de metade dos inquiridos referiu que não teve qualquer problema com os vizinhos e os restantes afirmaram que apenas ocorreram algumas discussões.

A investigadora refere que “apesar de ser esperado que os ciganos agissem com violência, não é essa a postura encontrada no bairro” porque os desacatos nunca passaram de discussões verbais. Como destaca  Juliana Segrini, “ainda que a etnia cigana esteja presente em Portugal há, pelo menos, cinco séculos, é a que mais distinção sofre diante da sociedade dominante”.

Escrito por
Ana Sofia Paiva
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Unidade curricular do mestrado em História, aberta a alunos externos. [Saiba +]

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