Projetos de investigação à lupa #5: Que vestígios modernos esconde a zona ribeirinha de Lisboa?

O que têm em comum dois navios, um estaleiro naval e outros elementos marítimos da Idade Moderna? Todos estes vestígios arqueológicos foram descobertos na zona ribeirinha de Lisboa.

O projeto “Lisboa Atlântica na Idade Moderna: estrutura urbana e atividades marítimas na Ribeira ocidental” surgiu em 2012 e resulta de uma colaboração do CHAM – Centro de Humanidades com a ERA – Arqueologia, uma empresa privada de arqueologia. Este projeto procura intervir sempre que são encontrados vestígios arqueológicos em grandes obras na zona ribeirinha da capital, com o objetivo de os salvaguardar, registar e estudar.

José Bettencourt, coordenador do projeto e investigador do CHAM, refere as várias intervenções realizadas e as descobertas que delas resultaram: “Até agora há quatro grandes intervenções: uma primeira na Praça D. Luís I, onde surgiu um estaleiro do séc. XVII, construído em madeira, com uma grande dimensão; a seguir, na zona onde foi construída a nova sede da EDP, surgiram dois navios, também do final século XVII; depois dessas duas intervenções trabalhámos na zona do Boqueirão do Duro, na zona de Santos, onde também surgiram contextos portuários e mais uma embarcação; a última intervenção em que colaborámos foi na zona onde está a ser construído o novo hospital da CUF, em Alcântara, onde surgiram mais contextos portuários”.

Este projeto permitiu dar resposta a problemáticas associadas ao conhecimento sobre Lisboa. “Há um potencial enorme para estudar vários temas relacionados com o desenvolvimento da cidade portuária, a construção naval, o comércio, ou a forma como Lisboa se foi articulando com o rio ao longo do tempo”, explica o investigador.

A descoberta do estaleiro da Praça D. Luís I foi particularmente importante para este conhecimento. “No caso das estruturas portuárias, percebe-se como é que a linha de costa foi sendo alterada ao longo do tempo, sendo que estes sítios acabam por servir como marcadores do limite da cidade de Lisboa. Permitem também perceber como é que se articulavam as atividades marítimas com as atividades terrestres numa cidade que é um porto milenar”, esclarece José Bettencourt.

O coordenador do projeto menciona ainda a importância dos navios da Boa Vista, descobertos aquando da construção da nova sede da EDP, na Avenida 24 de Julho, para compreender o papel da cidade de Lisboa no comércio marítimo durante esta época. “Os dois navios estarão muito provavelmente relacionados com a navegação colonial, com relações com o Atlântico sul, e levantam pistas de investigação interessantes sobre o comércio marítimo na segunda metade do século XVII.”

Fotografias (da esquerda para a direita): Vista geral, a partir de oeste, da secção de popa do navio Boa Vista; b) cocos arrumados no fundo do navio Boa Vista 2; c) vista da proa do navio Boa
Vista 2, a partir de norte, durante a desmontagem. Retiradas de Bettencourt et al., 2015.

 

 

 

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