Segredos de Lisboa medieval: a conquista

A conquista de Lisboa, a 25 de outubro de 1147, é um acontecimento para o nascente reino de Portugal. Contudo, a invulgar riqueza de testemunhos narrativos contrasta com a escassez de documentação.  Maria João Branco, especialista em Estudos Medievais, pegou nesta última para encontrar respostas sobre a conquista da cidade e a ocupação até 1185.

O cerco de Lisboa, que durou cinco meses e terminaria a 25 de outubro de 1147 com a conquista da cidade, é um episódio majestoso relatado com detalhe especialmente por um dos cruzados. Os anos que se sucederam também participam desse imaginário romântico. Porém, a pouca documentação disponível permitiu a Maria João Branco, investigadora do Instituto de Estudos Medievais, questionar neste artigo (2001) algumas linhas dessa narrativa.

Para os muçulmanos, Lisboa não parece ter tido um papel económico e estratégico-militar central “tão extraordinário” como é assumido por diversos autores e algumas fontes, sublinha, dado que a cidade estava afastada das principais redes de comércio da época.

Não questionando a fertilidade dos campos, a beleza do estuário ou a população já numerosa, Lisboa não era “um ponto vital para as defesas das linhas muçulmanas”. Era-o, sim, para os portugueses, defende Maria João Branco: o seu domínio garantia o acesso ao controlo de Santarém, Sintra, Palmela, Almada e a desejada Alcácer do Sal. “Lisboa significaria a consolidação das conquistas dos anos anteriores, e a trasladação definitiva do esforço de conquista do eixo do vale do Mondego para o do vale do Tejo”, justifica.

O recurso a forças militares dos cruzados em 1147 foi o primeiro de uma série de episódios da conquista do território. Era motivado pela escassez de população, que não poderia responder a um esforço tão alargado e continuado, e não apenas pelo serviço a Deus como algumas narrativas fizeram crer. O rei dos portugueses aproveitaria o ensejo para também, no intento de legitimar a sua realeza, promover a sua imagem como paladino da fé e como protetor e aliado dos movimentos mais próximos do Papado,  e aparecer como um aliado ao esforço de Cruzada e um protetor de Cistercienses e Templários. A imagem de um nobre rei na missão de acrescentar território ao seu reino e à cristandade em geral “era demasiado perfeita para ser verdade”, afirma a investigadora.

A ausência quase total de documentação entre 1147 e os anos de 1170 tem dado origem a teorias que defendem que a cidade teria ficado desertificada e despovoada por cinco meses de cerco. No entanto, uma análise mais rigorosa da escassa documentação demonstra que as primeiras ações foram restaurar a diocese, definir as paróquias e fundar o Mosteiro de São Vicente, o que pressupõe a existência de um aglomerado humano bastante vigoroso e permite identificar outros atores neste palco de meados do século XII. Mesmo assim, “não há como elaborar um quadro verdadeiramente coerente da ocupação do espaço e a sua repartição”, sublinha Maria João Branco.

Quanto à figura do rei, é representada recorrentemente na historiografia a postura de ordenador geral: “de proprietário patrimonial a fonte de ordem e lei, de senhor dos senhores a guerreiro e chefe de milícia, de piedoso fiel a protetor da igreja”. Contudo, a coerência da sua imagem e ações serão sempre “fonte de perplexidades e dúvidas para quantos se habituaram a duvidar de imagens demasiado certas e sem falhas em épocas onde a regra costuma ser a falta desta”, afirma, acrescentando que “neste contexto, não deveremos esquecer que os homens que povoavam a Lisboa do século XII não se esqueciam de que a sua missão de promover e afirmar a nova unidade política, o reino de Portugal, não poderia ser minorada nem esquecida”.

Imagem: Cerco de Lisboa, por Roque Gameiro.

 

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