Segredos de Lisboa medieval: o maravilhoso e o insólito de al-Andalus

Maçãs magníficas, violetas odoríferas, mar tenebroso e rio abençoado são algumas das descrições associadas a Lisboa na literatura árabe medieval e cujos escritores situaram entre o maravilhoso e o insólito.

Entre 714 e 1147, Lisboa fez parte da chamada Gharb al-Andaluz, a parte mais ocidental do mundo islâmico. As descrições geográficas e os relatos de viagens são comuns na literatura árabe mas nenhuma outra cidade da região teve, segundo António Rei, investigador do Instituto de Estudos Medievais, esta abordagem literária com a enumeração dos seus elementos “maravilhosos” e “insólitos”.

O adjetivo “maravilhoso” (ajîb) foi definido pela primeira vez na cultura árabo-islâmica por al-Qazwînî, autor do século XIII, como algo que causa a admiração do ser humano sem se conhecer o que a motiva. Também o “insólito” (gharîb) é associado ao fantástico e à ação humana mágica. António Rei reúne em “Lisboa e o seu alfoz, em relatos árabes do ‘maravilhoso´”, capítulo do livro “Lisboa Medieval – Gentes, Espaços e Poderes” (IEM, 2016), algumas das descrições “extraordinárias” da cidade.

A primeira condição do “maravilhoso” de Lisboa surge pela sua posição geográfica, junto ao oceano Atlântico, descrito como “Mar Tenebroso”.  Autores árabes falam de uma cidade construída tão literalmente à beira-rio ou beira-mar que se a porta sul, chamada Porta do Mar, estivesse aberta, as marés entravam mesmo na cidade. Por sua vez, o nome de Mar da Palha, expressão que derivará da Palha do Ouro, tem origem na existência de palhetas de ouro que davam às margens do rio Tejo, relatadas pelos escritores. A riqueza fluvial traduzia-se também na fertilidade dos campos, que permitiam duas culturas por ano.

De acordo com a literatura árabe, Lisboa tinha também o melhor mel, que cristalizava de tal forma que podia ser guardado em sacos de pano, e os melhores falcões de caça. Há também notícias de violetas que nasciam espontaneamente na serra de Sintra, de maçãs enormes produzidas nessa região montanhosa e de focas-fêmeas que, possivelmente no Verão, viriam dar à luz na costa portuguesa.

Imagem: mapa da cidade de Lisboa (século XVI) por Georg Braun e Franz Hogenberg.

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