15 Outubro, 2018

O uso da fotografia num país sem “pose”

“Portugal não é um país gráfico. Portugal é um país sem pose”, afirmava António Ferro, o primeiro diretor do Secretariado de Propaganda Nacional, no Estado Novo. Oliveira Salazar ouviu-o e a imagem ganhou um estatuto privilegiado na propaganda do país.

Inspirado nos regimes soviético, italiano e alemão, António Ferro procurou utilizar símbolos, a imagem dos ditadores, grandes números e fotomontagens para representar o país nas exposições nacionais e internacionais. Paula Lobo e Margarida de Brito Alves, investigadoras do Instituto de História da Arte da NOVA FCSH, analisam neste artigo (2017) a forma como o Secretariado de Propaganda Nacional (SPN) utilizou esses recursos estéticos nos primeiros anos do Estado Novo.

Um desses exemplos é a Exposição do Mundo Português, que decorreu em 1940, no terreiro de Belém. As investigadoras admitem que a fotografia já perdera o estatuto que lhe tinha sido conferido no pavilhão nacional montado em Paris três anos antes e, por isso, a lição de “portuguesismo” teve resultados “mais ou menos conseguidos”.

Foi Cottinelli Telmo, arquiteto e cineasta português, quem assumiu a arquitetura da exposição. A pintura mural, a estatuária e os baixos-relevo fizeram parte do esquema narrativo, talvez porque as imagens e os grandes números não fossem suficientes para traduzir a mensagem ideológica do salazarismo, adiantam as investigadoras.

A fotografia, de uso pontual, assumiu um valor documental, com exceção do Pavilhão da Colonização e da Sala 1940, instalada no Pavilhão dos Portugueses no Mundo.

No primeiro – dirigido por Henrique Galvão – os projetos de obras públicas, instrução e assistência nas colónias foram exaltados em fotomontagens. Aí se expuseram fotografias etnográficas da autoria de Elmano da Cunha e Costa e uma fotomontagem ilustrativa das etnias da Guiné.

Na Sala 1940, organizada por António Ferro e destinada a ilustrar os feitos além-mar dos portugueses, foram montados retratos de elementos da Legião e da Mocidade Portuguesa e fotografias de obras recentes, nomeadamente em Lisboa: a Igreja de Nossa Senhora de Fátima, nas Avenidas Novas, prémio Valmor de 1939, e o bairro das casas económicas do Alvito.

Imagem: Exposição do Mundo Português, Lisboa, 1940: Pavilhão dos Portugueses no Mundo, Sala 1940 Estúdio Mário Novais / FCG – Biblioteca de Arte e Arquivos

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