19 Outubro, 2019

O Natal no Fado da Mouraria

Norberto Araújo, novelista, jornalista e olisipógrafo, recriou a véspera de Natal na Mouraria, na novela Fado da Mouraria. Aquela que era “uma noite igual às outras” parecia nesse ano ter um espírito diferente…

Da Mouraria saíram muitas histórias: umas de amor, outras de desgosto, musicadas com a guitarra e a voz característica do fado. O som das suas guitarras é “como as cigarras nos campos: ouvem-se só quando elas querem”, escreveu Norberto Araújo (1889-1952). Nesse bairro a saudade é cantada todo o ano, inclusive na véspera de Natal. Foi esse o ambiente da novela que publicou em 1931, Fado da Mouraria, que diz ser baseado em factos reais.

A noite de Natal na Mouraria foi sempre, toda a roda do ano, uma noite igual às outras. Abarrotaram as baiucas de uma freguesia de vai-vem”.  A quadra natalícia descrita pelo escritor – que é, inclusive, topónimo entre a Calçada de São João da Praça e o Largo das Portas do Sol, em Alfama – teria contudo um espírito diferente. Como escreve: “neste domingo de Natal da minha novela um não sei quê de espiritual caracterizava o bairro, talvez porque constara haver festa de igreja na capela do Palácio da Rosa, e o mulherio se dava a participar da Missa do Galo”.

A melancolia e o desgosto, esse “triste fado”, é traço na obra, na personificação das irmãs Bôca Nêgra, sobrinhas de Joaquim Almofariz. As duas, para apaziguar o coração que palpitava por um homem, decidiram ir, precisamente nesse ano, à Missa do Galo. O ambiente familiar em que viviam, entre tios, sobrinhos e avós, é descrito com minúcia a que não faltam traços de fatalidade superados pela musicalidade do fado. Assim, antes da noite de Natal, descreve o autor como as crianças da casa, num alvoroço cantarolavam uns versos que lhes tinham sido ensinados pelos avós e que aludiam ao coxear da mais nova:

O meu amor é coxinho,
lá vem a arrastar o pé,
trás uma rosa no peito,
vejam se é êle ou não é.

A novela com 350 páginas, da Editora Popular Francisco Franco, tem capa de Stuart Carvalhais (1887-1961) e pode ser encontrada nomeadamente no Museu do Fado, em Alfama.

Para conhecer mais excertos de obras sobre o Natal em Lisboa, consulte o Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental, do Instituto de Estudos de Literatura Tradicional (IELT) da NOVA FCSH.

Imagem: Mouraria em Festa, José Artur Bárcia (sem data). Arquivo Municipal de Lisboa.

Escrito por
Ana Sofia Paiva
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