Expressões populares com origem em Lisboa

Sabe como nasceu a expressão “cair o Carmo e a Trindade”? Ao longo dos séculos, a língua portuguesa tem vindo a colecionar dizeres populares.  Três deles tiveram origem em locais lisboetas com topónimos femininos.

Foi no Miradouro de Santa Catarina, com vista para o Tejo, que outrora muitos portugueses “ficaram a ver navios”. A origem desta expressão, que significa “não alcançar algo que se esperava”, advém dos tempos após a batalha de Alcácer Quibir. Com o desaparecimento do rei D. Sebastião, a sucessão ao trono ficou incerta e o medo de que os espanhóis anexassem Portugal ao seu território fez com que muitos lisboetas fossem até ao miradouro que homenageia Catarina de Alexandria aguardar que o rei regressasse. O navio não apareceu e o povo ficou a ver navios.

No Largo do Carmo, encontram-se as ruínas do Convento do Carmo e do Convento da Trindade. Surgidos no período gótico, ambos eram uma marca paisagística da Baixa de Lisboa. A atual freguesia de Santa Maria Maior foi das mais afetadas pelo terramoto de 1755. Os dois conventos desabaram, o que deu origem à expressão popular “cair o Carmo e a Trindade”. Inicialmente expressava terror e estupefação perante uma tragédia; ao longo do tempo adquiriu uma conotação irónica.

A igreja de Santa Engrácia, hoje o Panteão Nacional, deu também origem a uma das expressões mais icónicas. Reza a lenda que este, que é um dos principais monumentos barrocos portugueses, foi amaldiçoado por Simão Pires Solis, um jovem cristão-novo. Ao ser condenado à morte por um crime que não havia cometido, afirmou que “era tão certa a sua inocência como era certo que aquela igreja nunca seria acabada”. Afetada pelo terramoto de 1755, por incêndios, por dificuldades técnicas e pela escassez de meios, a edificação da igreja demorou três séculos a ser concluída. Essa demora levou a que o povo começasse a adjetivar algo que tardava ou que era impossível de se concluir  como uma “obra de santa Engrácia”.

 

Trabalho realizado na Unidade Curricular de Produção Jornalística, do curso de Ciências da Comunicação da FCSH/NOVA. Teve como base o dossier Toponímia no Feminino publicado na revista  Faces de Eva (1999-2008), cuja fonte principal foi o Gabinete de Estudos Olisiponenses. A distribuição da toponímia por freguesias, realizada naquele dossier, foi atualizada tendo em conta a nova divisão administrativa, de 2012.

 

 

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