Viver no Parque das Nações – uma “marca” de residência

Condições do espaço público, características da habitação e prestígio social do Parque das Nações. Uma tese de doutoramento revela as motivações que levaram os seus residentes a eleger este bairro para viver.

Estará para sempre associado à Expo’98. Localizado na zona oriental de Lisboa, o Parque das Nações foi a herança desta exposição mundial. Percorre-se ao longo de cinco quilómetros junto ao rio Tejo. Segundo Maria Assunção Gato, que estudou as motivações dos residentes deste bairro na sua tese de doutoramento em Antropologia da NOVA FCSH (2009), “corresponde a uma regeneração urbana ímpar em Portugal”, dada a qualidade do espaço produzido, as infraestruturas criadas e as circunstâncias excecionais de conceção.  Trata-se de um “bom exemplo de como se pode reconverter uma antiga zona industrial num cenário privilegiado de rio”.

O Parque das Nações é maioritariamente designado como Expo pelos seus residentes, o que confirma a identidade do bairro relacionada com uma memória festiva, que funciona, segundo a investigadora, para manter uma certa vivência. Viver no Parque das Nações é, para os seus habitantes, residir num “lugar de férias”, num espaço “mágico”, numa “aldeia” dentro de Lisboa.

A qualidade de vida que os residentes afirmam ter traduz-se, por exemplo, na possibilidade de passear a pé e de bicicleta junto ao rio, no sossego, na segurança e na própria arquitetura urbana. “Sentimos que estamos dentro da cidade com aquela sensação de estar num espaço de férias”, disse um dos residentes numa das várias entrevistas feitas por Assunção Gato para a sua tese que resultou em livro (2014).

O bairro surgiu associado a estratos sociais elevados e os próprios residentes classificam-se na classe média alta, reconhecendo neste espaço condições de promoção social. Pertencer ao Parque das Nações significa “não só gozar das vantagens excepcionais de um espaço considerado ‘caro’, mas aceder à valorização social que os hábitos, gostos e comportamentos dessa classe transferem para o espaço que habitam”, explica a investigadora que arrisca associar a “pertença” ao Parque das Nações à exibição de uma “marca”. Será porventura uma nova classe média urbana ou uma pós-classe média que visa a “promoção social através da visibilidade do seu estilo de vida”.

Há, mesmo assim, nesta homogeneidade social uma diferenciação relacionada com a maior capacidade financeira dos que residem na primeira linha junto ao rio e os que residem atrás. A investigadora encontrou também uma evidente demarcação da zona do Parque das Nações que pertencia ao concelho de Loures. Quem residia nesta parte do território recusava-se a “pertencer” ao município de Loures, estabelecendo como referência identitária apenas o de Lisboa.

 

 

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