Graffiti no Bairro Alto: problema urbano ou obra de arte coletiva?

No início do século XXI, o Bairro Alto parecia uma galeria a céu aberto de graffiters. Enquanto o poder público tentava limpar a “sujidade” das paredes do bairro, um investigador da FCSH/NOVA associou-a a um dos maiores movimentos artísticos do século XX.

De noite, é ponto de encontro dos mais jovens e de turistas que se espalham pelas dezenas de bares e por outros espaços noctívagos. De dia, é um bairro tradicional, caracterizado por uma população envelhecida e por uma economia de bairro. No princípio do século XXI, começou a ser notícia nos media devido ao “problema social” que ali se instalava: “a incontrolável invasão do graffiti”, título de uma peça do Diário de Notícias de 28 de novembro de 2004. Ricardo Campos, investigador da FCSH/NOVA, tomou como objeto de estudo as paredes deste bairro e associou, neste artigo (2009), o graffiti a um dos principais movimentos artísticos do século XX – o surrealismo.

Considerado na altura uma violência visual pelos habitantes do bairro, por comerciantes e por turistas, o graffiti é, no entanto, uma manifestação de “múltiplas vozes e melodias, da mescla estilística tecida por diferentes grupos e tribos juvenis”, sublinha o antropólogo.

Coexistem nas paredes do Bairro Alto diferentes agentes criadores de sentido – writers, artistas urbanos e pichadores (os que rabiscam) –, de origem díspar, que se sobrepõem e atropelam. O “texto” daí resultante naquele tecido urbano assemelha-se, segundo Ricardo Campos, a um dos principais artifícios do surrealismo: o cadávre exquis, uma fórmula criativa que exige a participação de diferentes autores que, trabalhando em separado e sem conhecimento do que os outros estão a produzir, criam uma obra colectiva.

Tal como o surrealismo apelava à colagem e ao cadávre exquis nas artes visuais, ao jogar com os domínios do tempo e do espaço, também podem ser observadas no Bairro Alto “diferentes mentes e mãos laborando em tempos e espaços distintos, contribuindo para a produção de uma obra intersubjetiva”. O resultado é, tal como uma obra surrealista, paradoxal, enigmático e surpreendente. O que é “sujidade” para o poder público deve ser tratado, para Ricardo Campos, como um código estético, político e uma nova ordem de comunicação no espaço público.

Imagem em destaque: stencil executado sobre tags, desenhos e escritos no Bairro Alto. Segunda imagem: stencil, tags e throw-up no Bairro Alto.

Imagens e descrições cedidas por Ricardo Campos e disponíveis no seu artigo.

 

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