A quem pertenceu este palácio da Calçada do Combro?

O edifício que é hoje sede da Junta de Freguesia da Misericórdia, na Calçada do Combro, é geralmente associado à família Figueiredo Cabral de Câmara, senhores de Belmonte. Porém, Isabel Mendonça, investigadora da NOVA FCSH, descobriu um equívoco nesta ligação e revela ainda quem contribuiu para a riqueza do seu interior.

A família Figueiredo Cabral da Câmara teria sido responsável pela construção do palácio e nele teria habitado durante o século XVIII. No entanto, a investigação liderada por Isabel Mendonça, historiadora da arte da NOVA FCSH no âmbito do projeto “A Casa Senhorial em Lisboa e no Rio de Janeiro (séculos xvii, xviii e xix). Anatomia dos Interiores” veio provar que o palácio, conhecido pelos seus tetos em estuque de relevo,  afinal nunca pertenceu a esta família.

O equívoco terá começado com uma informação errada do olisipógrafo Norberto de Araújo nas suas “Peregrinações em Lisboa” (1938-39). Embora não se detenha na apreciação do palácio, que considera “sem história”, menciona a então proprietária, “D. Luiza Freire Cabral da Câmara que o herdou de sua mãi, a viscondessa de Moçâmedes”.

Isabel Mendonça esclarece neste artigo (2014) que foi outra família Cabral a última proprietária do palácio, antes de passar para a posse da Câmara Municipal de Lisboa: Baltazar Freire Cortês Cabral Metelo (1867-1924) e D. Maria Luísa de Almeida e Vasconcelos (1877-1963).

Foi a leitura heráldica dos cinco escudos pintados no interior do palácio, que remetem para a ascendência do casal e para as armas de linhagem paterna de D. Luísa, que permitiu à equipa identificar a verdadeira família Cabral.

 

A história do palácio

Esta investigação permitiu também identificar o responsável pelas “campanhas decorativas” do interior do palácio, que ainda hoje podem ser vistas: Fernando de Larre (1685-1761), o Provedor dos Armazéns da Guiné, Índia e Mina.

Entre 1684 e 1729, Manuel Pedro de Melo, bacharel em Sagrados Cânones pela Universidade de Coimbra, foi o proprietário das “casas nobres” da Calçada do Combro, onde viveu com a sua família. No entanto, credores instauraram contra si um processo por dívidas e, em 1742, Fernando de Larre comprou esses edifícios em hasta pública.

O novo proprietário empreendeu, entre 1744 e 1745, obras que fizeram triplicar o valor do palácio. Destacam-se os tetos em estuque de relevo, realizados “no ultimo primor da arte”, de acordo com uma avaliação de 1783, e que ainda se encontram preservados.

A inovadora linguagem ornamental presente nestes estuques – que conjugam elementos da Regência francesa e do “barocchetto” de ascendência italiana – e a sua semelhança com outro teto, datado de 1746 (Convento dos Agostinhos ou do Grilo, na zona do Beato, em Lisboa), parece apontar para a presença de estucadores suíços que trabalhavam em Lisboa na época – Giovanni Grossi, Domenico Maria Plura, Carlo Sebastiano Staffieri e Giovanni Francesco Righetti –, embora não exista informação documental que o comprove.

No salão nobre, a maior divisão do palácio, há um teto com uma configuração rara. Destacam-se as figuras de vulto, e em alto relevo, de meninos que gesticulam, aos pares, segurando cestos de flores e fruta, e os bustos de heróis clássicos coroados de louros. Uma outra sala mantém o ambiente intimista da sua provável função de quarto de toucador ou de “pentear”, a que aludem os meninos figurados no teto a segurar um espelho, joias e flores.

Depois do terramoto de 1755, Fernando de Larre mudou-se para sua quinta em S. Sebastião da Pedreira. Em 1756, residiam apenas dois criados no palácio da Calçada do Combro, que passou a ser alugado no ano seguinte. Até 1833 conheceu diversos inquilinos, todos estrangeiros e homens de negócios. A última proprietária, antes ser vendido em 1963 à Câmara Municipal de Lisboa, seria a família Cabral Metelo.

Em destaque: fachada do Palácio Cabral em 1967  (© Vasco Figueiredo, AML). Acima: fachada atual do Palácio Cabral (© Câmara Municipal de Lisboa).

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