Cemitério dos Prazeres: a cidade dos mortos a muros com a dos vivos

Os novos espaços funerários do século XIX começaram por acolher sepulturas individuais mas depressa os jazigos se tornaram casas simbólicas que imortalizam, deixando marca no espaço e no tempo. O Cemitério dos Prazeres tem mais de sete mil.

“Um cemitério é uma segunda cidade”. A expressão é cunhada por Paula André na sua tese de mestrado (1999) em História da Arte da FCSH/NOVA, intitulada “Os cemitérios de Lisboa no século XIX – pensar e construir o novo palco da memória”. Tal como a morfologia urbana de uma cidade, os cemitérios oitocentistas eram constituídos por artérias principais, como as praças e vias centrais, e por ruas secundárias.

Foi por imperativos de higiene que Lisboa passa de “cidade santuário com cerca de 130 necrópoles a cidade sanitária com dois grandes pólos de enterramento”, salienta a investigadora. Se, no início, os cemitérios públicos não foram bem acolhidos – até então os mortos eram enterrados em solo sagrado ou privado –, depressa o crescimento da cidade os tirou da periferia e os reconheceu como espaços coletivos. A burguesia deixou a sua marca construindo jazigos familiares que se destacavam das sepulturas individuais das classes mais baixas.

Nos anos de 1830, ergue-se, a oriente, o Cemitério do Alto de São João e, a ocidente, o Cemitério dos Prazeres, seguindo o modelo do cemitério parisiense de Père-Lachaise.

O Cemitério dos Prazeres, construído para acolher milhares de vítimas da epidemia de “cólera morbus”, é implantado em parte do terreno da Quinta dos Prazeres, sobranceiro ao vale de Alcântara. Seguindo o modelo de todos os cemitérios públicos, inclui uma ermida e casas próprias para habitação dos empregados. O terreno é dividido em três áreas: uma para enterramentos gerais em valas, outra para sepulturas rasas e uma terceira para mausoléus ou lápides com inscrições.

A arquitetura deste cemitério foi alvo de críticas. Em 1842, um articulista anónimo exprimia no Diário do Governo o seu desagrado com a “comprida rua de monumentos dentro da aridez de um campo murado”, onde os cadáveres apodreciam “com simetria de um e de outro lado”. Também António Feliciano de Castilho se manifestou negativamente em relação a este ordenamento, afirmando que a estética romântica seria o melhor modelo a seguir.

No entanto, à medida que o cemitério foi alargando as suas fronteiras, entrecruzando-se com a malha urbana da cidade, a sua arquitetura foi sendo adaptada aos jazigos, considerados monumentos sepulcrais. Dois deles foram “monumentais construções funerárias”, fruto de grandes encomendas. O jazigo encomendado por António Augusto Carvalho Monteiro (1848-1920) em 1908, ao arquiteto italiano Luigi Manini (1848-1936) é uma monumental construção adornada por esculturas, que ficou situada na praça pública do Cemitério. O outro foi traçado em 1910 pelo arquiteto Ernesto Korrodi (1870-1944), por encomenda da condessa de Burnay, ocupando uma superfície de 25 metros quadrados.

Hoje, o Cemitério dos Prazeres acolhe mais de sete mil jazigos, incluindo o maior mausoléu privado da Europa: o dos Duques de Palmela.

Sabia que a Capela dos Prazeres esconde uma sala onde se fizeram as primeiras autópsias, fora do Instituto de Medicina Legal?

Mausoléu de D. Pedro de Sousa Holstein, 1.º Duque de Palmela
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