16 Julho, 2020

Construir uma cidade a Metro – Parte II

Sabia que durante a construção do metropolitano existiam umas janelas próprias para os lisboetas observarem as obras? E que a calçada da Avenida da Liberdade, afetada pelas obras, foi colocada em tempo recorde para a passagem da Rainha de Inglaterra, em 1957? Estes são pormenores insólitos da maior intervenção do subsolo lisboeta.

A imprensa lisboeta acompanhou a construção do metropolitano e todos os dias eram publicadas notícias sobre o seu estado no momento. O que era uma construção local começou a tornar-se numa consternação nacional, devido às várias polémicas que o metro despoletava. Maria Fernanda Rollo, investigadora do Instituto de História Contemporânea (IHC) da NOVA FCSH, conta algumas dessas polémicas no livro “Um metro e uma cidade” (Ed. Metropolitano, E.P., 1999).

Quando foi cortada a primeira palmeira, deu-se oficialmente início às obras do metro na Avenida da Liberdade. O “Caso Avenida”, famoso por as obras implicarem o arranque de palmeiras e restantes árvores na Avenida da Liberdade, teve repercussão a nível nacional. Os meios de comunicação continuavam a publicar a opinião negativa dos lisboetas, nomeadamente no Diário Popular.  Era descabido extraírem a flora que ornamentava a avenida.  A polémica pulsava na cidade e no país, mas a campanha “Salva-se a Avenida” foi suspensa pelo regime de Salazar.

Com o início desta construção na Avenida da Liberdade, previa-se retirar as estátuas dos sítios originais, como  o monumento em homenagem aos soldados mortos na Primeira Guerra Mundial. A polémica foi de tal ordem que os construtores encontraram uma forma de continuarem as obras no subsolo com o monumento suspenso no solo. “A vala aberta entre o Monumento dos Mortos da Grande Guerra e a Rua Barata Salgueiro, com cerca de 200 metros de extensão” devia ter perto de dez metros de profundidade, aponta a investigadora.

Contudo, outro fenómeno não podia ser controlado: as intempéries. Durante as obras, Lisboa foi pautada por chuvas muito fortes e derrocadas de pedras e terras no inverno de 1956, o que atrasou ainda mais as obras na Avenida. Era urgente terminá-las porque Isabel II visitava Lisboa em fevereiro do ano seguinte. Parecia uma tarefa impossível mas concretizou-se graças a dezenas de calceteiros que trabalharam horas a fio para terminar a obra.

Com esta conquista, Maria Fernanda Rollo comenta que “nesta perspectiva, 1957 ficou a constituir também um marco para a história do Metropolitano. Porque a obra começava, finalmente, a ser vista como algo que já não podia sofrer recuos; porque os sacrifícios a que foram sujeitas algumas das zonas mais nobres da Capital e dos seus habitantes, afinal, faziam sentido; porque a simbiose do metro com a sua cidade se tornava irreversível”.

E se era irreversível a ligação da cidade com o metro, também era a curiosidade dos lisboetas com as obras em curso. Com a cidade perfurada e o subsolo completamente exposto, a curiosidade era ainda mais aguçada, porque as obras estavam vedadas com tapumes de proteção. Face a este entusiasmo, a empresa de construção aceitou a proposta do Diário de Lisboa e colocou janelas nos tapumes. A medida foi de tal maneira inovadora e interativa que vários eram os que iam espreitar as obras às janelas.

Além disso, a empresa mandou publicar folhetos de publicidade que designou como Manual do Mirone para a boa utilização futura deste meio de transporte. Mais tarde, com a inauguração do primeiro escalão da primeira fase do metro, a 29 de dezembro de 1959, viria a designar-se o Manual do Passageiro.

Fotografia: Manual do Mirone

Escrito por
Ana Sofia Paiva
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